O Show de Truman (1998)

“Good morning, and in case I don’t see ya, good afternoon, good evening, and good night!”

“Um universo que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido”- Jean Baudrillard afirma que nossa realidade foi substituída por simulacros, dentro de uma sociedade pós-moderna onde o poder da mídia e a linguagem da propaganda é fortemente explorado. Um mundo de simulações, onde não se sabe mais o que é real, já que a imagem torna tudo mais real do que o próprio real… Não, isto não é tão somente O Show de Truman. Isto é o nosso mundo, muito prazer…

Claro que O Show de Truman não ganharia um Oscar. Felizmente, não consideramos como grandes filmes unicamente os que recebem a estatueta. Deve-se considerar a linguagem do cinema, a essência de um sentido. E vamos admitir, este filme não é um entretenimento. Após vê-lo, você entra num conflito psicológico. Te faz refletir em aspectos da vida. Uma crítica ao mundo moderno, à falta de privacidade, ao consumismo e ao rótulo. O filme nos mostra entre planos e angulos oculares, que poderíamos (se ainda não somos) ser um Truman da vida, por não questionarmos nossa realidade, e desta forma vivermos numa zona de conforto. Podemos viver assim por anos e anos. Se não fosse (para alguns) a desconfiança ou mesmo inconformidade da nossa verdade, a vontade de descobrirmos mais, seriamos Truman então, participando num elenco que ri e chora com você, não por você?

Por fim, Truman é aquele que questiona. O que desconfia e o que busca um sentido maior do que aquele que o conveniente Cristof pode dar.

Truman (Jim Carrey)  vive sua vida aparentemente comum e sussegada, trabalhando com seguros,  numa cidade chamada SeaHeaven rodeada por mar. Praticamente uma ilha (Walllt!).

É casado com uma enfermeira, se dá bem com os vizinhos, todos o cumprimentam e parecem adorá-lo. O que ocorre é que Truman passa a desconfiar desta vida, pois nunca consegue abandonar SeaHeaven. De verdadeiro, na realidade só havia ele mesmo (“True Man”?). Todas as pessoas, familiares, amigos de infância, eram atores que participavam do reality show de Truman desde seu nascimento.

Eram 5.000 câmeras espalhadas em SeaHeaven para acompanhar Truman em absolutamente tudo que ele fazia. O criador deste reality show, Cristof (belíssima interpretação de Ed Harris) fica escondido junto com todo o restante da produção, na Lua artificial da cidade, onde ele controla o dia, a noite, e todos os elementos da natureza. Enfim, uma curiosa analogia de Deus…

“Como isto irá terminar?” é uma das primeiras perguntas que surgem, que significa muito mais do que parece. O filme é cheio de sarcasmo sobre a publicidade barata, a imagem rotulada, e a falta de humanismo. Uma cena interessante de comentar é a que Meryl (esposa de Truman) mostra um pote de chocolate para Truman de uma forma como se estivesse fazendo (e estava) um comercial do produto.

Um dos pontos fortes do filme, é a presença de elementos cinematográficos, que através de uma linguagem perfeita, consegue exprimir detalhes e sentidos que se pretende passar com a história. Os ângulos das câmeras, não só as “câmeras do programa” que aparecem nitidamente mesmo mais pro meio do filme, (quando Truman chega a ter a certeza de que está sendo vigiado), como também os angulos minunciosos, com extremidades escuras. A linguagem deste filme é expressiva, sólida. E até melancólica.

Truman nos leva a questionar também nossas meias verdades, vai muito mais além do que a história dentro de um longa. O final, quando Cristof fala com Truman, é ainda uma analogia direta de Deus, passível de milhares de interpretações filosóficas. A manipulação que Truman foi sucedido desde criança, com a morte forjada do pai, para resultar num trauma, da qual teoricamente e considerando lógicas da psicologia, Truman jamais sairia de seu mundo de mentira, para enfrentar um medo do desconhecido. Este era o objetivo de Cristof, considerando que uma vez que Truman abandonasse SeaHeaven, o programa acabaria.

É aquele tipo de filme, cult e alternativo para os olhos de alguns, pouco compreendido aos olhos de outros, e hipnotizante e filosófico aos olhos de quem absorve seu conceito. É uma ruptura dos padrões de filmes de entretenimento. E Jim Carrey surpreendeu muitos na época, considerando que o ator parecia servir só pra papagaiadas no estilo O Máscara. Há não muito tempo, surgiu ‘Brilho eterno de uma mente sem lembranças’, também mostrando um Jim Carrey diferente. Eu particularmente prefiro este Jim Carrey. O Jim Carrey de Truman, e de Joel.
Foi uma grande sacada de Peter Weir, escolher Carrey, numa faceta impagável, pois mesmo com as cenas cômicas do filme, é sobretudo um drama, que lhe deixa triste mais por questões abstratas do que pela própria trama em si. Pois você passa o filme todo com pena de Truman, e ao vê-lo sair (eu pelo menos) senti desgosto por todos aqueles espectadores que torciam para a saída de Truman. Afinal, são os mesmos que davam audiência para o programa. Contudo, quem somos nós para criticar uma hipocrisia que nos parece tão familiar?

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3 pensamentos sobre “O Show de Truman (1998)

  1. Nossa, sempre quis ver esse filme, mas nunca tive a oportunidade… na real eu sempre confundo com o “Eterno brilho de uma mente sem lembranças” (eu sei q n tem nada a ver, hahahaha)

  2. Ótimo, fabuloso…é o filme que mostrou que Jim Carrey era mais do que um ator de comédia. Graças a Deus, porque ele pode fazer mais tarde Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, do Michel Gondry.

    Peter Weir é um ótimo diretor, que já fez entre outros filmes, Sociedade dos Poetas Mortos e O Mestre dos Mares.
    Curiosamente, mudar o curso de nossas vidas é tema constante na filmografia dele.

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