Ladrões de Bicicleta (1948)

Estréia do queridíssimo Bill Falcão como o mais novo autor do Le Matinée!

Tudo por uma bicicleta

“There’s a cure for everything except death.”

Muitas coisas na vida nos emocionam. Quando ganhamos um cachorrinho, por exemplo, e isso nos alegra. Ou quando esse cachorrinho morre e ficamos sós. É o momento da dor.

No final da Segunda Guerra Mundial, a Itália era um país destruído. Muitas pessoas não tinham mais nada e tentavam reconstruir suas vidas. Nesse cenário, um grupo de cineastas e roteiristas se uniu e decidiu que aquele era o momento propício para a realização de filmes mostrando aquela realidade.

Foi assim que surgiu o neo-realismo, um dos movimentos mais importantes da história do cinema. Dentre as grandes obras-primas produzidas naquele período, destacamos o filme “Ladrões de Bicicleta”, dirigido por Vittorio De Sica em 1948.

Logo na primeira sequência, vemos um homem pobre esperando o chamado para conseguir um emprego. Ele é chamado. Seu trabalho será colar cartazes pela cidade. Mas ele é logo avisado de que, para isso, precisa ter uma bicicleta.

Ele tinha uma bicicleta. Mas estava numa loja de penhores, pois ele, a mulher e o filho precisavam comer e não tinham dinheiro.

Sua mulher resolve que pode trocar a bicicleta pelos lençóis e fronhas da casa. A bicicleta era mais importante.

De Sica, como era costume no neo-realismo, não chamou atores famosos. Procurou pessoas comuns nas ruas italianas e encontrou dois atores maravilhosos, que interpretaram o pai, o que precisava da bicicleta, e seu filho, um garoto de cerca de oito anos.

E o homem vai trabalhar. Ele segue alegre para o seu primeiro dia de trabalho.

Num momento em que está distraído, colando um cartaz, surge um rapaz e rouba sua bicicleta.

Ele corre, pede ajuda, mas perde o ladrão de vista. Estamos no fim de semana. E ele tem até segunda de manhã para recuperar sua bicicleta, ou perderá seu tão aguardado emprego, depois de não se sabe quanto tempo desempregado.

O pai, ajudado pelo filho, parte então para uma busca desesperada pela preciosa bicicleta, onde ele iria carregar os cartazes e o balde de cola para garantir o sustento da família.

Nessa busca, nos deparamos com todos os dilemas, todos os dramas, todas as contradições do homem moderno. De Sica consegue tirar momentos sublimes daquela busca. Pai e filho estão sós num mundo indiferente à sua dor. E percebem que estão cercados por dores semelhantes. Cada qual procura um remédio, um milagre, uma cura para suas vidas.

“Ladrões de Bicicleta” figura tranquilamente entre os dez maiores filmes que já vi na vida. Não é e nunca será datado, enquanto nosso planeta sofrer aqueles dramas que vemos na tela. A cena final, quando o filho aperta a mão do pai no meio da multidão, é de partir o coração da pessoa mais insensível do mundo.

E isto era o que os idealizadores do neo-realismo queriam dizer. Que não podemos fugir, que a realidade que nos cerca não permite isso. Não há fuga. Vamos sorrir com a chegada de um cachorrinho para alegrar nossa vida. Ou vamos chorar no dia em que uma doença qualquer o tirar de nós.

* Bill Falcão é editor do Jornal da Lua.

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22 pensamentos sobre “Ladrões de Bicicleta (1948)

  1. Pingback: Cidadão Kane (1941) « Le Matinée!

  2. Realmente este filme é reconhecido internacionalmente como obra prima. Pena que não tem para vender um CD porque é filme para ver e achar detalhes toda vez que o vemos.Eu o vi há dezenas de anos.

  3. Bill, como sempre, sua inteligência e sensibilidade me comovem. Você foi muito feliz na escolha do filme, realmente uma obra-prima, intemporal.

    Parabéns a você pela estréia brilhante, e parabéns também a Natália pela criação do blog!

  4. Esse filme é maravilhoso, faz parte dos meus favoritos!

    Tenho um blog em que comento todos os filmes que ando assistindo. Meu objetivo é assistir 1000 no período de um ano hahaha Já que seu blog é no mesmo gênero, de comentários sobre filmes, você gostaria de fazer parceria com o meu?
    Colocarei o link daqui lá, qualquer coisa coloca aqui também :)
    Abraços

  5. Deve ser um filme muito bom mesmo! Todos nós temos os filmes que nos traduzem, ou o filme que nos traduz… Existe um filme que já vi dezenas e dezenas de vezes, comprei o DVD, já sei até os diálogos de cabeça… rs… Um dia faço um post sobre ele, pode não ser um lindo filme, mas ele faz parte da minha história de vida.. rs

    Beijocas

  6. nunca tinha ouvido falar sobre esse filme, mas já fiquei interessada!
    ótimo a presença de vc aqui Bill! apesar da Nanah não ter comentado nada comigo, né?!
    beijo!

  7. Começou bem!
    Convite irrecusável para ver “Ladrões de Bicicletas”!
    Aqueles que já assistiram, vão querer rever.
    Parabéns, Bill!
    Gostei imensamente do “Le Matinée”.

    Beijo
    Lúcia Calmon

  8. Oi Bill.
    É uma grande alegria saber que não estamos sós no mundo. Sua sensibilidade me comove e alegra. Mais que uma crítica ao filme, seu comentário demonstra que você é um homem solidário. É, para mim, uma honra ser amigo de um homem que tive o prazer de conhecer, menino. Procure falar sempre deste bom cinema. Dê as costas a esses espetáculos, de um modo geral, americanos, que cheios de ruídos, estão aí para impedir a reflexão. Parabéns.

  9. Bill, é bom saber que você fará comentários sobre filmes. Vi “Ladrões de Bicicleta” há algum tempo e também faz a minha lista dos dez mais. Aliás, essa lista tem quase cem, rs. É imperdível. A sua crítica foi poética e tão linda quanto ao filme.
    Beijocas

  10. Sou fã do Bill e não poderia deixar passar esta oportunidade de prestigiar a sua estreia neste interessante blog. Nem vou dizer que adorei a sua performance como comentarista de cinema porque, pra mim, tudo o que ele escreve é assim: Perfeito!
    Grande abraço e parabéns ao blog pela preciosa aquisição.

  11. Só pelo texto já deu pra perceber que este filme é daqueles que a gnt se emociona e fica até meio perturbado depois que assiste… Quero ver!

    Seja bem vindo aqui no Le Matinée!

    Grd Bjo!

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