Metrópolis (1927)

“There can be no understanding between the hand and the brain unless the heart acts as mediator”.


Metrópolis foi um filme que mais tarde se tornou um dos clássicos do expressionismo alemão. Desenvolvido em 1927 pelo austríaco Fritz Lang, muito das cenas foram cortadas pela produtora alemã UFA (Universum Film Aktiengesellschaft) e o filme ainda saiu de circulação. Foi só em 2008 que em Buenos Aires, foram encontrados rolos em 16mm no Museu de Cinema Pablo C. Ducros. Daí o filme foi restaurado mesmo com alguns frames ainda danificados, perdendo ainda também um bom trecho sobre a trama e alterando até mesmo a narrativa.

Com este ‘novo’ material foi reconstruído o filme, e na 34º Mostra de Cinema de São Paulo, o filme foi exibido para cerca de 12 mil pessoas no lado externo do Auditório Ibirapuera. E a cereja do bolo: a trilha sonora do filme, regido pela Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo.

E eu confesso, apesar de ser muito suspeita pra falar (e já explico o porquê): Foi emocionante ver, toda aquela galera num frio e garoa fininha de alguns momentos, sentados naquela grama nada fofinha por praticamente 3 horas, assistindo um filme mudo de 1927 e com bocas abertas, além de um aplauso super longo ao final do filme. Foi realmente emocionante. Eu ressalto ainda a educação e o respeito pela cultura, de toda aquela galera que assistiu essas quase 3 horas de filme, no maior silêncio sem ouvir absolutamente nenhum barulho de celular ou pessoas conversando. Nem em cinema se consegue isso!

Pessoal chegando para assistir a exibição

Agora, explicando o porquê de que pra mim foi maravilhoso, este filme foi um dos meus pontos de estudo para meu trabalho de Conclusão de Curso como designer neste ano. Desenvolvi um Jogo de Realidade Alternativa com referências do Expressionismo Alemão e Metrópolis foi um dos filmes ícones que marcou todo o embasamento de meu estudo, seja por sua própria estética quanto por sua conotação futurista e de ficção científica.

Na época, Metropolis foi considerada como a produção mais cara filmada na Europa. Conta uma história que se passa no século XXI, do qual os trabalhadores eram escravizados pelas máquinas. Era uma simbologia da preocupação com a mecanização da vida industrial no estilo de vida metropolitano, questionando a importância do sentimento humano.

Orquestra Jazz Sinfônica abaixo do telão =)

 

Metropolis apesar de relações com as características de filmes deste período, ele é diferenciado por seu cenário e roteiro, dos primeiros filmes expressionistas onde se destacava uma história lúdica remota, e por vezes pitorescas, como o próprio O Gabinete do Dr. Caligari, Nosferatu, e Golem (representados pelo terror e ambientação soturna). Ele representa mais a Alemanha industrial, e a exaltação da sociedade urbana:

“Lang traça um inventário seletivo das angústias associadas à cidade moderna, ao poder maléfico da técnica, além de um elogio à colaboração de classes, propondo, em seu roteiro, uma reconciliação entre o proletariado e o capital.” (BENFATTI).

Fritz Lang não era muito simpatizante do roteiro de Thea von Harbou sobre o capitalismo e o operariado, incluindo o papo bonitinho sobre o mediador entre o cérebro e a mão. E apesar de sua visão mais pessimista sobre o assunto, e de ter sido considerado na época um certo fiasco, hoje nós sabemos o papel impactante e a visão que naquela época Lang possuía sobre o futuro e o próprio comportamente de máquina e homem. Metrópolis não é um dos melhores filmes já feito, porém é além de uma obra prima influente, é ainda vivo e respeitado dentro do cinema mundial.

“Metrópolis teve várias versões para o cinema, sendo a mais conhecida justamente a mais criminosa: a que foi musicada por Giorgio Moroder nos anos 80, a partir de um corte de apenas 83 minutos, contra os 153 minutos da estreia alemã e os 116 minutos da exploração comercial nos EUA.” (via Cineclick)

Quanto a análise do filme em si, ele é bastante envolvente para um filme mudo em preto e branco. Possui narrativas reflexivas até no que diz respeito sobre a evolução humana ou mesmo nossa estupidez. Brigitte Helm faz um papel convincente de Maria tanto na versão malvada e com tiques nos olhos, quanto na versão de boazinha. O interessante de um filme mudo é que nos leva a reeducação no que diz respeito de linguagem visual: Por aparecer textos explicativos em somente alguns momentos, você se atenta muito mais nas imagens a fim de obter maior entendimento da história. Quanto ao cenário, por mais tosco que possa parecer em alguns momentos, Metrópolis traz uma visão futurista bastante interessante e trabalhada, que com certeza serviu de referência anos depois para que George Lucas pudesse criar as cidades espaciais de Star Wars.

Sinopse: Metrópolis, ano 2026. Os poderosos ficam na superfície e lá há o Jardim dos Prazeres, para os filhos dos mestres, enquanto os operários, em regime de escravidão, trabalham bem abaixo da superfície, na Cidade dos Operários. Esta poderosa cidade é governada por Joh Fredersen (Alfred Abel), um insensível capitalista cujo único filho, Freder (Gustav Fröhlich), leva uma vida idílica, desfrutando dos maravilhosos jardins. Mas um dia Freder conhece Maria (Brigitte Helm), a líder espiritual dos operários, que cuida dos filhos dos escravos. Ele conversa com seu pai, que diz que é assim que as coisas devem ser. Quando Josaphat (Theodor Loos) é demitido por Joh, por não ter mostrado plantas que estavam em poder dos operários, Freder pede a ajuda dele e vê as condições que existem no subsolo. Paralelamente Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), um inventor louco que está a serviço de Joh, diz ao seu patrão que seu trabalho está concluído, pois criou um robô à imagem do homem, que nunca se cansa ou comete erro, e diz que agora não haverá necessidade de trabalhadores humanos, sendo que em breve terá um robô que ninguém conseguirá diferenciar de um ser vivo. Além disto decifra as plantas, que são de antigas catacumbas que ficam na parte mais profunda da cidade. Curioso em saber o que interessa tanto aos operários, Joh e Rotwang decidem espioná-los usando uma passagem secreta. Ao assistir a uma reunião, onde Maria prega aos operários lhes implorando que rejeitem o uso de violência para melhorar o destino e pensar em termos de amor, dizendo ainda que o Salvador algum dia virá na forma de um mediador. Mas mesmo este menor ato de desafio é muito para Joh, que ouviu a fala na companhia de Rotwang. Assim, Joh ordena que o robô tenha a aparência de Maria e diz para Rotwang escondê-la na sua casa, para que o robô se infiltre entre os operários para semear a discórdia entre eles e destruir a confiança que sentem por Maria.

Pra quem quiser saber mais sobre o evento que rolou na 34º Mostra, acesse a matéria de Heitor Augusto no Cineclick.

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3 pensamentos sobre “Metrópolis (1927)

  1. Pingback: Um pouco de Expressionismo Alemão « Le Matinée!

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