Vidas que se cruzam (2008)

“Why? Don’t you like me?”

Geralmente, o carisma ou repúdio que criamos em relação a um determinado personagem se dá de uma forma objetiva seja nos meados de uma história, ou em somente num ato final do qual você tira a conclusão de tudo. Não muito comum, existem aqueles personagens que começa e termina o filme e você ainda não consegue discernir bem ao certo, bandido de mocinho. Pois se atos desprezíveis um personagem causou no filme te dando assim um desprazer com seu perfil, outros atos, ou mesmo as ações de seu passado, pode te deixar confuso na tarefa de julgar um protagonista. Vidas que se Cruzam não fica muito longe disso.

Mas, se é no roteiro que o filme tem sua maior força, isso se dá ao talento já conhecido de Guillermo Arriaga, que desta vez conta também com a direção do longa. Nos primeiros minutos do filme, tudo soa muito confuso, com uma estranha perseguição, fatos ocorrendo sem sabermos ao certo em qual linha do tempo cada um está (uma em cada, tudo na mesma, enfim) e personagens novos surgindo ora falando em espanhol, ora em inglês. Ocorre um esforço bobo em querer juntar todas as peças logo no começo, receando perder o fio da meada. E quando se chega neste estágio, há uma desenvoltura que flui de uma forma simplista até, fazendo o torvelinho ser desmanchado, e é isso que faz um filme dramático com fatos mornos e aparentemente enfadonho te prender tanto sem piscar, do começo ao fim.

Complicado mesmo é fazer uma resenha se policiando constantemente de spoilers. Pois fatos até mesmo dos primeiros minutos podem te tirar o gostinho da descoberta. Limito-me então, na apresentação dos personagens fortes do filme todo: Gina (kim Basinger) é uma das três mulheres que você não sabe ao certo que tipo de paixão nutrir por ela. Pois se ao mesmo tempo em que ela soa como uma meretriz e mãe irresponsável, ela traz uma faceta de uma mulher que se vê em profunda angústia em se sentir amada, devido seu ego complexado e afetado. Mariana (Jennifer Lawrence) que traz tanto um personagem forte quanto uma atuação realmente contrastante. O que não podemos dizer ao mesmo de Kim Basinger, pois apesar da brilhante atuação da mesma, seu personagem não permitiu que se aflorasse mais dentro de seu íntimo. Aí entra um dos pontos negativos para Arriaga. Por fim, a primeira que encontramos logo nos segundos iniciais: Sylvia (Charlize Theron) num misto de perturbação e lascividade, apresentado sem muitas delongas.  Mas, que (por uma razão bem fácil de compreender após ver o filme) é a chave de tudo, o foco central de toda a trama.

Ainda que com menos foco, porém um personagem onde claramente podemos ter um carisma mais absorvido, é Maria (Tessa Ia), uma garotinha que assiste a um acidente que ocorreu com seu pai enquanto ele pilotava um avião.

Interessante é que a maioria da nossa percepção com relação aos personagens vem mais depois que acabamos de assistir, e começamos a analisar cada cena, que cumpre o papel de explicar os porquês (mesmo alguns não coerentes) das características dos personagens. Entretanto, como já falado, algumas coisas e personagens soam vagos (como o personagem de Gina) ao nos questionarmos como era realmente sua relação com a família. Questionamentos secundários, bem verdade, considerando todo o foco principal de ação e reação do filme todo.

Carecendo de uma consistência textual, que sirva esta resenha pelo menos como uma indicação positiva de um trabalho talvez não tão bem produzido, numa trama relativamente simples, mas cuja desenvoltura garante êxito, não nos decepcionando no final de tudo.

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12 pensamentos sobre “Vidas que se cruzam (2008)

  1. Vi esse há mais ou menos um mês, gostei, achei muito bom e provou que Arriaga consegue se virar sem Iñárritu. Mas ainda percebi rastros d’A Trilogia do Caos em Vidas Que Se Cruzam. O roteiro está excelente mesmo, melhor que ele só as interpretações densas de Charlize Theron e da incrível Jennifer Lawrence.

  2. Eu poderia repetir o comentário do Weiner aqui. Mas faço uma ressalva: ambos os cineastas ficaram faltando em seus projetos individuais. Faltou a direção vigorosa, visceral de Iñárritu em VIDAS QUE SE CRUZAM, da mesma forma que faltou o texto bem estruturado de Arriaga em BIUTIFUL. No entanto, Arriaga, que ainda teve de buscar toda uma nova equipe técnica, se saiu melhor. VIDAS QUE SE CRUZAM está longe de ser excelente, mas, como você apontou, ao final fica como um trabalho consistente. Dou 6/10 ou 3/5

  3. Fiquei tentado a assisti-lo quando soube que seria a primeira incursão de Arriaga como diretor (após o fight que teve com Iñarritu). Pois bem, enquanto este se deu mal sozinho (BiutiFAIL), Arriaga mostrou extrema competência: Vidas que Se Cruzam é muito roteiro, muita direção e também muita atuação, pois Jeniffer Lawrence, Charlize e Kim estão divinas!

  4. Ótimo texto! Soube delinear muito bem sem revelar o que a história nos reserva, mas eu não gostei de “Vidas que se Cruzam”, não. Humm, achei arrastadíssimo, por mim, Arriaga ficaria só mesmo no roteiro, já que provou ótimo nesse departamente. Como diretor é perdoável a fragilidade denunciante aqui por ser estreante, mas possa ser que entregue filmes melhores mais pra frente. Esse me lembrou muito de Rodrigo García, sempre com filmes que trazem mulheres fortes e talz… é bacana =)

    e Kim Basinger está excelente aqui. Acho que é o ponto mais interessante do filme.

    bjs, valeu!

    • Oi Elton!

      Sim, tem partes que vão se arrastando, é um risco que todo drama corre. Porém por conta do roteiro que se apresenta misterioro no começo, a parte enfadonha do meio não chega a prejudicar, na minha opniao.

      Nem gostei tanto da Basinger aqui. Achei que Lawrence se destacou bem mais.

      Bjs

  5. Nat, adorei seu texto, você evitou contar ao máximo sobre a trama e, ainda assim, conseguiu deixar o texto muito bem feito!

    Acho esse filme incrível, os dramas, os diálogos, a premissa. É triste. É real. É tocante.

    Basinger está otima, mas sua personagem perto da dimensão de Lawrence e Theron perde um pouco, mas isso não prejudica o filme – é um trabalho que merecia ter sido mais admirado pelos cinéfilos.

    Adorei a direção do filme, bem segura.

    Que bom vê-lo aqui.
    Beijo

    • Oi Cris!

      Super dificil fazer resenha de certos filmes que todo e qualquer detalhe parece revelar mto do filme que poderia ser uma surpresa.

      Tb gostei deste filme. É rico em conflitos e tb tocante mesmo.

      Bjs!

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