Cisne Negro (2010)

“I felt it. Perfect. I was perfect.”

Atenção: Post com spoilers

Pegue uma pitada de uma Ópera de Giacomo Puccini (Madame Butterfly), mescle com um pouco de outras tragédias shakesperianas, um pouco do suspense de roteiros que envolvam a crise de realidade vs fantasia numa esquizôfrenia certeira, e pra calda, acrescente muito Tchaikovsky. Pronto, você tem os elementos necessários para compor um belíssimo drama, acrescentando coisas peculiares daqui e ali por puro toque de mestre. Sabendo mesclar bem estes elementos, você pode ter um drama cujo final não é nada original, mas traz a originalidade vencida por um tema pouco explorado ultimamente. Tudo isso sem cair em remakes ou qualquer coisa parecida que Hollywood anda se entregando a custa de bilheteria garantida.

Bem verdade que resumir Cisne Negro a somente estes elementos, é menosprezar uma obra que dificilmente se vê no cinema comercial. Aquilo é arte pura. Coisa que se percebe antes mesmo de ver o longa, basta observar os cartazes do filme. Foge da publicidade barata carregado de photoshop e tipografias em 3D. Aquilo é vanguarda russa, com minimalismo. Aquilo é a demonstração nítida de como não se deve esquecer as referências pós modernas.

Voltando pro filme, afinal lá também tem muito da arte. Nina (Natalie Portman) é uma bailarina cujo lado de sua personalidade é voltado para o anjo do ombro direito. Incapaz praticamente de ser grossa, de esbarrar sem pedir desculpas ou de sequer pensar em atos libidinosos, vê este seu até então ponto positivo ser fragilizado quando percebe que precisa representar o lado bom e ruim de si mesma, para atuar com paixão e transparência a peça de O Lago dos Cisnes, que fica evidente ser um sonho (diria até obsessão) após tantos anos dedicados ao balé. Afinal, como mesmo mostrado no filme, nem sempre a perfeição se dá pelo correto e exatidão. Há perfeição na desconstrução (lição número 1 do filme).

Darren Aronofsky carrega o filme em analogias referentes aos dois lados da moeda de todo ser humano: o santo e o diabólico. A loucura e compulsivo anseio pela perfeição vai ganhando forma em Nina que começa a ter visões deturpadas, ficando difícil para o espectador discernir exatamente quais são elas em determinadas cenas do filme. Não importa. Somos enebriados pela própria visão deformada de Nina, raiva e pena se misturam, você se cansa de ver Nina chorar, mas se assusta quando o lado negro da força começa a se destacar no personagem (nerd:On – sabia que a Rainha Padmé iria se render ao Sith algum dia, Muhahahaha – nerd:Off). O suspense ganha força, o medo de si mesmo começa a perturbar a personagem e como numa composição que intercala Allegro com Adágio, o filme soa como uma peça regida por uma melodia densa mesmo nas horas mais agitadas (como a cena da balada).

E a presença quase constante da arte sobretudo. Seja na introdução magnífica logo do começo, como em toda a cena final, quando Nina desperta completamente o Cisne Negro que havia dentro de si. Portman comove. Ela é a Rainha Cisne. É como se ela nascesse para representar Nina. Difícil imaginar qualquer outra em seu lugar. Já Leroy (Vincent Cassel e suas olheiras de buldogue velho) com um charme que não sei da onde as bailarinas enxergam nele, também ganha destaque neste filme, representando talvez um vilão sutil. Mais um vilão psicológico e subjetivo do que apenas um personagem neutro. Talvez mais vilão do que a própria Lily (Mila Kunis) a outra bailarina, escolhida como substituta de Nina. Da mesma forma que Nina ganha contornos maléficos, Leroy parece dar um ar de bonzinho após o meio do filme, que até então era representando de forma muito insinuante como uma raposa, forçando simpatia para abocanhar a presa. Já Lily, não impacta em nada. Mesmo tendo um papel razoavelmente forte, Kunis se torna morna. Tão morna quanto Winona Ryder como a bailarina aposentada Beth. Ou será que elas perdem o sal, pelo contraste gigante provocado por Portman? Eis a questão.

O último Ato, digamos assim, é o melhor do filme. Mesmo num final não original (porém pouco desfrutado no cinema atual) é para se chocar ao perceber certos detalhes que vão se esclarecendo conforme é esclarecido à própria Nina num conflito constante de sua consciência. Nina volta a ser Cisne Branco em seu perfil quando representa o Cisne Branco, se torna negro quando deve se tornar na peça, e volta a tona com sua pureza, em lágrimas de amargura ao ver sua mãe na platéia emocionada. A pressão psicológica pela busca da excelência, a magreza excessiva e a culpa por um pedaço a mais do bolo, a angústia de provocar em seu íntimo algo que não lhe parece ser de sua natureza. A capacidade de representar no Balé exatamente estes detalhes que refletem de sua alma no que tange sua pureza e perversão. Cisne Negro erra sim em certos aspectos, há algumas cenas que poderiam ser melhor trabalhadas (repito, cena da balada por exemplo). Porém, você sente a presença da arte, seja na trilha, na fotografia ou no próprio balé. A Arte pura que não deve ser esquecida pelo cinema e agradecemos a Aronofsky por isso.

Final do ato.

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19 pensamentos sobre “Cisne Negro (2010)

  1. Pingback: Top 10 – Personagens de 2011 « La Matinée!

  2. Perfeito! Um filmaço. Melhor dos 13 que assisti este ano no cinema.
    Ah! Estou concorrendo a ingressar na Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Dê uma visitada no meu blog e se achar bacana (conteúdo e layout)… Quero vir a somar.
    Abraço.
    =]

  3. estava esperando um texto seu hehehe.

    O filme pode até ter sim certos clichês de filmes de suspense como aquelas paranóias e tals, mas aronofsky faz de cada detalhes algo inédito. é perfeito. A sequencia final me deixou em choque. Nunca que eu imaginava assitir algo parecido um dia.

    Lindo, pura arte e metafórico Cisne negro é o melhor dos indicados sem dúvidas.

    Abç!!

  4. O filme é incrível, ele mexe com os sentidos, deixa sem fôlego. A sutileza da cena introdutória, mostrando o sonho que Nina quer tanto realizar, causando essa busca da perfeição e que estrapola em seus limites, muito bem trabalhado. Natalie Portman perfeita! ;)

  5. Ótimo texto, Natalia. Arrasou! “Cisne Negro” é mesmo um dos melhores filmes do ano. O casamento Aronofsky + Portman deve ser repetido no futuro – isso se a moça estiver psicologicamente bem para aceitar mais uma parceria com o cara rs.

    bjs

  6. Sinceramente, ainda estou sem palavras pra esse filme!

    Achei um trabalho grandioso, desde já meu favorito do Oscar. O filme é todo perfeito em suas esferas técnicas e, principalmente, interpretativa.

    Natalie Portman é deusa aqui, expressa uma interpretação única. A maneira como sua personagem se desnuda, aos nossos olhos, é algo revelador…e a mão cuidadosa de Aronofsky ajuda, ao colocar a personagem aos nossos olhos e sentidos, com todas suas fragilidades e anseios, é assombroso.

    O filme pulsa, é todo psicológico. Me arrepiei bastante. A cena em que Nina explode, visualmente e metaforicamente, seu “Cisne Negro” desde já é um momento clássico do cinema moderno.

    Belo filme mesmo!
    Vou ruminá-lo mais um pouco, depois escrevo (tento) algo…

    Beijo!!!

  7. Amei esse filme. Enquanto a obsessão de Portman é ser perfeita, minha obsessão atualmente é ver Cisne Negro o máximo que puder. Como você falou brilhantemente em seu texto, parece que ela nasceu para interpretar Nina. Não poderia ter dito melhor. Fora isso, o trabalho dos outros atores (Kunis, Cassel e Hershey estão excelentes) e do diretor, Darren Aronofsky (para mim, um dos melhores atualmente junto com Boyle, Almodóvar, Tarantino e Haneke) apenas se misturam com a brilhante atuação de Portman no filme. Se ela não ganhar esse Oscar, nunca mais valorizo essa premiação.
    Abraços, texto lindíssimo.

  8. Pois é, Natalia, estou tão apaixonada por esse filme que é difícil até comentar. hehe. E sem dúvidas, o último ato é o melhor. Só não concordo que Winona Ryder esteja sem sal, não é fácil ser a estrela que perde a vez para nova, a boa interpretação talvez esteja aí, em se fazer de apagada, ainda mais sendo a nova Natalie Portman e a forma como ela vivencia o personagem.

  9. O melhor do filme é que ao invés dele mostrar a paranóia de ‘Nina’, ele nos faz entrar nessa paranóia como se estivessimos vivendo a personagem.

    Até onde a loucura pela busca da perfeição pode levar esta bailarina? Adorei e é o meu favorito entre os 10 indicados, mas acho que não vai levar não.

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