Não me abandone jamais (2010)

“We all complete. Maybe none of us really understand what we’ve lived through, or feel we’ve had enough time.”

Do livro de Kazuo Ishiguro, Não me abandone Jamais tem excesso de melancolia. Não cheguei a ler o livro para fazer as necessárias comparações a respeito de uma adaptação. Pela visão daquela que somente viu a versão cinematográfica, este é um drama, que paralelo com a vida amorosa que permeia durante todo o filme, traz metáforas sobre nossa própria existência que nos leva a ponderar sobre nossa vida, e a humanidade.

O ponto forte do filme (um dos, talvez) é o triângulo amoroso e o trio que interpreta: Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield que subestimei e me surpreendeu aqui) e Ruth (Keira Knightley fazendo o papel  secundário, mas ilustre como sempre). Quando crianças, estudavam numa espécie de internato chamado Hailsham. Um belo dia, uma das professoras um pouco chocada com a realidade a respeito do futuro destas crianças resolve contar-lhes a verdade: o destino de cada um, que justifica todos os meios sobre quão bem cuidados eles estavam sendo ali (em aspecto físico). Logo cedo, as crianças encararam sua realidade sobre suas vidas e aceitaram de uma maneira que com o passar do filme vai nos incomodando. Ansiando pela revolução que não chega, antes de analisarmos qualquer razão para o silêncio dos jovens, há no nosso coração a angústia de fazer mudar as coisas.

É pouquíssimo explorado no filme a verdadeira idéia de quem eles são. Poder-se ia acreditar que são órfãos (o que não é sobretudo uma mentira). Os termos sobre encontrar seus “originais” não parece fazer sentido se não é feito uma reflexão sobre o contexto por trás do longa. O que fica na superfície é uma história de amor. Entretanto esta história de amor não deve ser menosprezada, considerando as pessoas que se apaixonam, e o fato a se ponderar sobre Ciência e Evolução VS Sentimento e humanismo.

O triângulo amoroso se dá por uma Ruth invejando o amor puro de Tommy e Kathy, e desta forma, assumindo as rédeas e fisgando Tommy para si, deixando Kathy por um bom tempo como uma solitária capaz de aceitar tudo: Não somente seu próprio destino como a perda de quem ama.

Apesar disto, Kathy sempre esteve lá. Sempre gentil, sempre bondosa, sob lágrimas sentidas ela concordava ou fechava os olhos. É como uma morte silenciosa, da qual a dor que é sentida é superada pela capacidade de aceitação de cada um, sobretudo de Kathy. A gente se pergunta porque raios eles não simplesmente fogem? E foi só quando revi na memória novamente o filme, me dei conta de que quando um ser é criado com um dedo apontando para ele falando sobre os perigos do mundo e sobre a fraqueza humana, este ser sempre estará num casulo. É a Alegoria da Caverna de Platão. Em nenhum momento, Tommy, Kathy e Ruth saíram da caverna para a luz, porque a luz talvez seja o mundo dos loucos e porque foram criados com a manipuladora ideia de que todos deveriam aceitar seus destinos, sem lutar pelo contrário. De uma forma subjetiva, muitos vivem sem a revolução, porque desconhecem esta possibilidade considerando que parte de suas características foram manipuladas por um cérebro maior. Manipulação e a falta de humanismo, talvez sejam os termos exatos que retratam o filme todo, e faz termos cada vez mais pena de nossos protagonistas (independente das desavenças que envolva o triângulo amoroso entre eles) e cada vez mais aversão a quem controla tudo do jeito que as coisas são, inclusive mediante a frieza dos fatos. Bem verdade que estas questões são relativas. Afinal, e se nós fossemos os controladores? Enxergaríamos Kathy, Tommy e Ruth como humanos?

Seja pecando ou acertando, o fato é que isso fica num plano abaixo, quando temos a relação amorosa dos três jovens. Temos 3 pontos da linha de tempo linear que vão se desenrolando conforme o filme. O auge de nossa hesitação, talvez o ponto marcante e profundamente melancólico que o diretor Mark Romanek joga com todas as forças para a tela, é de fato a inocência destes personagens (precisamente em Tommy) e a sua angústia a medida que é chutado e cuspido toda a realidade de uma ilusão alimentada por esta inocência. [COMEÇA SPOILER] Acreditando que através de seus desenhos (da arte) pudessem ver sua alma, Tommy realiza criações compulsivamente na esperança de que pudessem ver pela sua alma, que o amor entre ele e Kathy era verdadeiro e puro. E que desta forma, ganhassem momentos a mais para compartilhar deste amor. “Não queríamos ver suas almas, queríamos ver se possuíam alma. Porém vocês são tudo, menos humanos”. [/TERMINA SPOILER] Apesar de ser difícil compreender estas palavras, pois em quase nenhum momento o filme te dá esta ligação com a ficção científica, o que importa é a decepção estampada em Tommy. O que importa é sua forma de explosão. Um deleite para aqueles que gostam de uma verdadeira carga de tristeza, este é o trecho em que o coração começa a sangrar.

Esquecido pelo Oscar, Não me abandone Jamais não deve ser esquecido como tantos outros dramas que podem emocionar somente na hora. Refletimos então sobre a existência e sobre a humanidade. A parte disto, temos uma trilha sonora expressiva, uma fotografia fria ornando com a trama, e a atuação excelente do trio de atores. Praticamente indispensável.

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7 pensamentos sobre “Não me abandone jamais (2010)

  1. Pingback: Top 10 – Personagens de 2011 « La Matinée!

  2. Interessante sua crítica me fez ter vontade de assistir a este filme, que acabei deixando de lado.

    O Andrew Garfield tb atuou bem em “A Rede Social” e, por incrível que pareça, começa a me animar com a nova franquia do Homem Aranha.

    Abraço

  3. Mais um belo texto, analítico e sensível sobre esse filme tão denso e tão triste que me deixou arrasado.

    É dolorido, mas faz pensar sobre como a vida é efêmera, como tudo deve ser aproveitado intensamente. E o tempo corre e nem vemos: a vida se perde se não amarmos mais, se não aproveitarmos mesmo cada segundo dela.

    O elenco é um máximo, e é triste observar a ‘impotência’ de seus personagens que nada fazem pra mudar a condição, diante da morte que virá…

    Ps: a cena do carro com Tommy e Kathy me deixou sem palavras…

    E é um absurdo mesmo ele sequer ter sido lembrado no Oscar. Ainda mais que, convenhamos, Carey e Garfield estão excepcionais, e temos uma Keira expressiva, triste também. Ao meu ver, merecia indicações ao trio central; trilha sonora; fotografia e direção…

    beijo

    Abraços!

  4. Eu simplesmente amei esse filme. Me tocou e me revoltou ao mesmo tempo, e a melancolia que o ronda vira até um atrativo a mais em meio aos personagens interpretados por Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley, todos numa perfeita forma. A cena em que Tommy explode é forte e o auge da tristeza do filme.
    Ótimo texto. Enquadrou bem os principais pontos e a questão da humanidade que o filme coloca em voga. Abraços.

  5. Com uma vontade imensa de assistir, e o tal mistério envolvendo ele me empolga demais. Pena que demore mais um pouco para chegar ao Brasil. Lindo texto, mesmo não sabendo direito do que se trata. Beijos.

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