Conta Comigo (1986)

“It happens sometimes. Friends come in and out of our lives, like busboys in a restaurant.”

Há cerca de 15 anos atrás eu tinha um grupo do qual fazia parte. Não éramos uma banda, não tínhamos um grupo de estudo na escola, nem possuímos objetivo algum. Há não ser um: uma amizade eterna. Era uma fase da qual não sabíamos bem “quantificar uma eternidade”, desconhecendo aquilo que Renato Russo diria como “o pra sempre, sempre acaba”. Fizemos um pacto de sangue, pois vimos isso num filme (Da Magia Á Sedução), criamos um livro, que nada mais era que um caderninho onde anotávamos as canções que mais gostávamos e as coisas que aprendemos umas com as outras. Pouco tempo depois, nos formamos. Ai acabou que duas antes mesmo de nos formarmos, desapareceram de vista. Encontrei uma no ônibus há 6 ou 7 aos atrás e trocamos banalidades. E tem a terceira. Amiga que conheço desde meus 5 anos de idade. Amiga, que se eu ligar chorando numa madrugada qualquer, vai correr até onde estou pra me abraçar.

E o que importa isso? Esta terceira cresceu, é formada, tem uma vida estabilizada e é dona de seu próprio nariz. Mas, eu consigo olhar nos olhos dela, e enxergar aquela infância da qual ríamos e debochávamos dos professores, acreditávamos em piratas fantasmas escondidos nos corredores da escola, e sonhávamos em ter uma banda de rock.

Baseado no conto The Body de Stephen King (que traz algumas relações pessoais sobre o escritor), o filme trata sobretudo da nossa infância e de momentos dos quais sentimos saudades. Sobre nossas amizades quando criança, numa época onde pouca coisa importava realmente, a não ser o intangível poder de se divertir com as coisas simples. Sobre submergir numa fantasia aparentemente boba, mas que marcou como uma enorme aventura cheia de ação e suspense num mundo que fazia total sentido para nós.

Gordie (Wil Wheaton, que anda aparecendo esporadicamente em Big Bang Theory) era um garoto cheio de rancor pelo pai, que perdeu seu filho mais velho, do qual parecia ser “o preferido”. Gordie e seus amigos, Chris (River Phoenix), o caricato gordinho medroso Vern (Jerry O’Connell), e o rebelde explosivo e brincalhão Teddy (Corey Feldman) resolvem se aventurar há alguns km de distância de suas casas, em busca do corpo de um garoto desaparecido há alguns dias. Vern, ouviu de garotos mais velhos a respeito do paradeiro do corpo do garoto Ray Brower, e os meninos decidem então descobrir o paradeiro do corpo, a fim de buscar certa “fama”.

De roteiro simples, e cenas bastante claras, Conta Comigo traz constantemente as crises internas dos meninos que desabafavam a respeito da vida que eles temiam pela frente. Gordie tinha uma boa família, mas se sentia detestado pelos pais. Chris acreditava que teria um futuro fracassado, pela visão que as pessoas tinham dele. Através da imaginação de cada um, das brincadeiras e riscos que corriam entrando na linha do trem, ou numa “piscina” de sangue-sugas, o filme nos dá a sensação de uma aventurinha boba da Sessão da Tarde. Seu final, pode não trazer nada a mais daquilo que insinua ter (com revólver na história e uma gang bagunceira suspeita). A conclusão se dá pelo diálogo de Gordie que desde o começo narra a tal aventura em busca do corpo do menino, em sua infância, no final da década de 50. O diretor Rob Reiner se atentou mais à inocência de toda a trama, com discussões a respeito da verdadeira espécie do Pateta, ou de um conto sobre um gordinho comedor de tortas, para com um diálogo simples e significativo, pudesse finalizar com tamanha transparência todo o sentido no filme, aliado aos acontecimentos aparentemente bobos de todo o meio do filme. A mensagem é clara e toca cada um, porque cada um lembra de sua própria infância. Gordie se pergunta ainda se temos uma amizade como a que tínhamos aos 12 anos. E é claro que não. Nem mesmo esta minha amiga e eu temos a mesma amizade. Porque parte dela vai com a infância abrindo espaço para mudanças e novos mundos que descobrimos.

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9 pensamentos sobre “Conta Comigo (1986)

  1. lendo a resenha, lembrei que eu realmente já assisti esse filme, mas faz tanto tempo, que só me vem alguns flashes na memória. preciso assistir de novo.
    foda a nossa infância, né? a amizade entre as quatro pode não ter sido eterna, mas acho que nós duas conseguimos fazer isso ser verdade :)
    beijos!

  2. A minha relação com esse filme é exatamente a mesma que a sua. Representa muito a fase infância/adolescência e o as amizades que foram ou continuam. Lindo texto, que aliás me fez ficar com vontade de rever o filme. ^^

    Adorei o blog, assinarei o feed e tbm linkarei no meu blogroll.

    Grande abraço!

  3. Amo esse filme exatamente pela sensação de ter minha infância de volta e de lembrar de ver o filme na sessão da tarde mesmo. É a mais pura verdade, jamais teremos amigos iguais aos que tínhamos aos 12. E que sorte a nossa.
    :)

  4. Gostei do seu post! Ainda mais por que esse filme representa muito minha infância. Eu gostava muito de ver pra “imitar” depois com minha turma na rua, rs. Bons tempos. O trabalho deste filme, bem mais interessante que o próprio conto de Stephen King, é mostrar como se sustentava a infância frágil e inocente, dos tempos onde não existia tanto a maldade…

    É um filme aparentemente ‘bobo’, sim. Mas, nossa infância assim era, tudo bem inocente…tudo tão nostálgico.

    Gosto muito dele, mas prefiro “Os Goonies” – eu via esse praticamente todos os dias, rs!

    Beijo

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