Pi (1998)

“When I was a little kid, my mother told me not to stare into the sun, so when I was six I did”…

A habilidade de Aronofsky em construir um filme denso, psicótico e com tamanha carga perturbadora, já lhe é conhecida. Pi, conta sobre um matemático chamado Max Cohen (Sean Gullette), que acredita haver um padrão dentro dos números da bolsa de valores, segundo sua linha de raciocício:

1. A Matemática é a linguagem da Natureza;
2. Tudo pode ser representado e compreendido através de números;
3. Ao fazer gráficos com números de qualquer sistema, surgem padrões;
Portanto, há padrões em tudo na Natureza.
O que chama atenção neste longa são três fatores: primeiro, sua complexidade no que diz respeito ao raciocínio de Max transposto em diálogo ou em frames.
O roteiro é bem simples, pois já há este emaranhado matemático que por vezes faz acreditarmos estar assistindo a uma espécie de documentário. Para aqueles mais familiarizados pela matemática, o filme pode forçar uma linguagem didática demais, quando por exemplo, Max encontra uma conchinha na praia e relaciona seu formato com o espiral infinito que representa o número áureo.
O segundo fator é na verdade o primeiro que nos é absorvido: o filme é em preto e branco. Não somente em preto e branco, mas quase um positivo/negativo, com pouquíssimas escalas de cinza e desta forma, valorizando a luz e sombra contrastante por vezes com granulados propositais e sutis na tela. Talvez por isso o filme não é tão comprido, pois chega uma hora que tamanha densidade do filme e peso psicológico começa a incomodar.
O terceiro fator são pequenos closes que Aronosfky teve cuidado de projetar. Seja nos detalhes simbólicos de uma fumaça de cigarro, do açúcar se dissolvendo no café, quase formando imagens significativas como a do próprio espiral, ou na repetição exata de Max tomando seus medicamentos, com a mesma intensidade de sombra que as vezes não condiz com um quadro anterior a esta, mas que dá pra notar ser proposital também.
Entretanto, estes detalhes visuais enriquecem mais ainda a mescla de sensações que a película passa. As dores de cabeça e crises intensas de Max faz todo sentido da composição visual e dos ruídos incômodos postos na cena, quase soando como um experimento de Stockhausen. Tudo transmite relações e analogias, como o próprio universo da matemática quando encontramos na natureza os mesmos padrões existentes nos números.
No geral, um filme denso e perturbador, muito interessante que não lhe dá boas reflexões mas pode fazer você sentir saudades de suas aulinhas de matemática (ou não). De orçamento baixíssimo, mas que reflete um bom trabalho do diretor.
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5 pensamentos sobre “Pi (1998)

  1. Acho esse uma obra-prima. Primeiro pq adoro filmes inteligentes que nos levam a ativar o raciocínio, segundo pq a direção movimentada de Aron é brilhante e terceiro por ter sido feito com poucos recursos provando que é possivel sim fazer otimos filmes de com baixo orçamento, ainda mais ficção cinetifica que geralmente são caros. Deve estar entre meus 10 preferidos de ficção.

  2. Esse é um filme que preciso ver novamente pra digerir melhor. Como você falou, é bastante incômodos, talvez pelas cenas com um grande contraste escuro, talvez pelo tom adquirido pelo filme. Mas é um bom trabalho, Aronofsky mostra que mesmo com o orçamento baixíssimo consegue fazer filmes perturbadores.
    Abraços.

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