Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

“I’m paraphrasing – um, ‘I would never want to belong to any club that would have someone like me for a member.'”

Como escolher a melhor frase para botar neste post, quando o ponto alto de um filme são os diálogos? Acho que poderia escrever centenas delas, mas vamos manter a tradição de botar somente uma (quando há filmes que é escasso uma boa frase para colocar na resenha).

Alvy (Woody Allen) é um humorista judeu, que após dois casamentos fracassados, ele acaba se apaixonando por Annie (Diane Keaton). Não há nada no roteiro em si, que possa ser diferente das comédias românticas mais trágicas que se vê por aí (talvez em 1977 fosse algo inovador, de fato). Mas não é nisso que o filme se prende. Aliás, eu diria que é muito além disso. Como já ressaltado, os diálogos são bem apurados, principalmente de Alvy, um personagem interessantíssimo, cheio de pontos de vista, conservador e irônico o tempo todo.

E não subestimemos como comédia romântica, uma vez que estamos falando de um filme inteligente, que não deixa nossa cabeça preguiçosa. Não só pelas alfinetadas sarcásticas e cômicas de Alvy, como nas poucas cenas hilárias, que ao menos são verdadeiras e não soam forçadas.

Woody sabe como conduzir somente com falas e poucos detalhes, um bom filme. Ele não precisa gastar muito numa produção para atignir mérito merecido com seu longa (Diane Keaton usa suas próprias roupas para gravar). Sua linguagem para manter o teor cômico é peculiar e agradável. Muitas vezes se dirigindo ao espectador para intensificar o que ocorre numa cena (além do maravilhoso monólogo no começo do filme), ou ainda sendo introduzido numa cena remota de sua vida, para argumentar teatralmente um fato.

Não posso deixar passar em branco a aparição curta de Christopher Walken, como Duane, o irmão de Annie, que em sua pequena fala psicótica, já traça o perfil dos tipos de personagem que o ator veio a fazer depois. Aliás, adoro essa relação de expressão de um artista com o perfil de um personagem…

Alvy – que frequentava a psiquiatria há 15 anos – termina seu monólogo com uma analogia sobre um irmão louco que pensava ser galinha. E compara a história com o amor. Deixa a gente sem compreender o que é um amor, quando filmes bobos por aí tentar desmistificá-lo em vão. E ele ainda fala, justificando sua primeira peça teatral que escreve na história, que na arte tentamos deixar tudo certo, tudo bonito, uma vez que na vida não é. E em sua própria arte, ele traz a realidade, sem tirar a beleza dos bons momentos com Anne, que repassaram como numa lembrança, como a cena hilária da lagosta. Divimos o mundo entre o horrível e o infeliz, e devemos nos alegrar em ser infelizes…

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8 pensamentos sobre “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

  1. Natalia, vou deixar a ultima frase do filme:

    “Eu lembrei daquela velha piada, sabe? O cara vai ao psiquiatra e diz “Acho que o meu irmão enlouqueceu, ele pensa que é uma galinha, doutor”. “Por que você não o interna?” perguntou o médico. E o cara responde “É porque eu preciso dos ovos.” Então eu acho que é mais ou menos assim que vejo os relacionamentos, eles são totalmente irracionais, loucos, absurdos, mas nós continuamos tentando porque precisamos dos ovos.”

    Allen fez aqui um dos melhores estudos sobre relacionamentos. Excelente. E olha que nem curto muito o diretor hehe

  2. Esse é da época em que o termo “comédia romântica” não era sinônimo de filme bobo e previsível. Infelizmente hoje em dia a concepção mudou bastante. E o texto apontou bem, o enredo em si pode não ser lá dos mais raros, mas o que diferencia é a forma do filme mesmo. Tem umas coisas geniais (a cena das legendas dos pensamentos, a “mente” da Annie saindo do corpo, etc. ). Um dos meus filmes favoritos.

  3. Um filme apurado mesmo, como você disse, inteligente! Concordo com seu ótimo texto aqui, que bom que aprecia essa obra tanto quanto eu. Ainda bem que a Academia premiou este filme com o que ele merece, né? Engraçado que tantos anos depois, ainda é sensacional e “diferente”. Um filme que não envelhece. A química de Keaton com Allen é magnífica, ela mereceu muito o Oscar!

    Abraço!

    • Pois é, pelo contrário, o filme se mostra cada vez mais atual, rs. E as indagações e reflexões iniciais de Alvy faz a gnt se prender ao filme todo. É como se o longa fosse uma poesia, mto bem feita!

  4. Esse filme é incrível! Acho um dos melhores de Woody Allen. Tem o romance e a comédia fundidos numa medida certa, e é ótimo como, por mais que seja antigo, ainda consiga divertir hoje em dia. É uma comédia romântica atemporal, como pouquíssimas que aparecem atualmente. E os diálogos só comprovam a inteligência e o diferencial do filme.

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