Capitalismo: Uma História de Amor (2009)

“I refuse to live in a country like this, and I’m not leaving.”

O norte-americano Michael Moore é um dos maiores cineastas da atualidade. E conseguiu essa fama investindo em um estilo cinematográfico que nunca foi popular: o documentário. Seu segredo é misturar temas do cotidiano com fortes pitadas de humor.

Em seu mais recente filme, “Capitalismo – Uma História de Amor”, Moore retrata acontecimentos recentes da história dos Estados Unidos, como a crise financeira de 2008 e suas consequências. Mas não fica apenas numa narrativa didática. Ele investiga os fatos e procura os culpados. Mostra quem sofreu e quem lucrou com isso.

Sim, lucrou! Por incrível que pareça, tem gente que lucra com crises financeiras. Para Michael Moore, os Estados Unidos vive numa democracia, e a prova maior disso é que ele consegue realizar filmes como este, mas a democracia está subjugada a um poder maior. E este poder maior é o capitalismo.

Os grandes industriais, os grandes capitalistas, também estão no poder, pois financiam as campanhas políticas de candidatos que pensam como eles e, é claro, vão querer alguma recompensa depois que seus escolhidos forem eleitos.

E o povo? Bem, o povo é apenas um detalhe, na visão de pessoas que só visam o lucro. O povo só serve se trouxer algum lucro para os detentores do capital.

Michael Moore veio de uma pequena cidade do Estado de Michigan, Flint. Em um de seus filmes, ”Fahrenheit 11 de Setembro”, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2004, mostrou como a cidade prosperou, enquanto lá estava instalada uma fábrica da General Motors. Um belo dia, o dono da General Motors descobriu que poderia lucrar mais se fechasse a fábrica em Flint e abrisse outra num local onde os operários não fossem tão organizados e ele pudesse alcançar lucros muito maiores.

O resultado é que o povo ficou sem emprego, na miséria. Entre os antigos funcionários da empresa automobilística estava o próprio pai de Michael Moore, numa cena mostrada em “Capitalismo”. O que vemos é uma sequência de dramas causados pelo desemprego em massa. Famílias sendo despejadas de suas casas, partindo para uma vida sem esperança, enquanto os altos executivos da General Motors compravam novos iates e tiravam férias em Dubai ou Las Vegas.

Michael Moore parte numa cruzada em busca de uma resposta para aqueles dramas. Persegue o dono da General Motors por diversas cidades dos Estados Unidos, cerca o homem em congressos, hotéis, tenta conversar com políticos, mas o que vemos é que são poucas as pessoas poderosas que se importam com os que não têm poder nenhum.

É essa discrepância entre todo o poder e poder nenhum que motiva Michael Moore a realizar seus filmes. Em “SOS Saúde”, ele mostra como os Estados Unidos, ainda sob o comando dos republicanos de George Bush, mantinham uma política totalmente doentia em relação ao atendimento público hospitalar.

Seu posicionamento fica claro, porém. Ele não é republicano. Ele é democrata. Ele jamais apoiaria nomes como Richard Nixon, Ronald Reagan ou George Bush, pai ou filho. No entanto, é capaz de dar suporte a políticos do calibre de John Kennedy, Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama.

Muita gente, que não conhece a história dos Estados Unidos, pode pensar que republicanos e democratas são farinha do mesmo saco. Mas Michael Moore mostra quem é quem em seus filmes, onde, em certos momentos, lembra as maravilhosas realizações de Charles Chaplin, como, por exemplo, “Tempos Modernos”.

A ironia em “Capitalismo, Uma História de Amor”, já começa pelo título. Não existe nenhum amor nessa história. Quem tem o poder, quem tem o capital, ama apenas sua própria conta bancária. Sabendo disso, Michael Moore é capaz de parar na frente de um banco e gritar através de um megafone: “Vim aqui, em nome do povo, pegar nosso dinheiro de volta. Podem colocar em nossas sacolas, por favor!”

Moore também mostra que os políticos apoiados pelos capitalistas da direita, ou da extrema-direita, já o conhecem bem e fogem dele como o diabo da cruz. Em uma cena de “Capitalismo”, ele chega ao Congresso e tenta conversar com os políticos. E diz: “Senador, preciso de um conselho seu.” E o político responde: “Pare de fazer filmes!”

Na cena seguinte, vemos o cineasta ao lado de um político, com certeza do Partido Democrata, e a voz dele em off: “Finalmente, encontramos um senador que NÃO É crítico de cinema!” E consegue boas informações do político, que são passadas para nós, os espectadores.

“Capitalismo, Uma História de Amor” nos mostra como o povo pode ser usado e enganado. O filme é feito por um americano, nos Estados Unidos, mas poderia ser feito por um cineasta de qualquer país. Um brasileiro, vendo os filmes de Michael Moore, pode tranquilamente se identificar com as cenas mostradas na tela.

No final do filme, Moore nos mostra a chegada de Barack Obama ao poder. Um negro na presidência dos Estados Unidos! E, ainda por cima, democrata! Uma vitória do povo! Um susto terrível para os conservadores capitalistas do Partido Republicano!

O povo cansou de sofrer e resolveu ir às urnas para mostrar a sua revolta? O que acontecerá daqui pra frente? Será que Barack Obama conseguirá aprovar todas as suas reformas? Qual o futuro do capitalismo?

Aguardemos o próximo filme do brilhante cineasta Michael Moore.

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Combate (1962–1967)

Um dos melhores seriados de todos os tempos está na programação do TCM (canal 91, pela Net). É Combate (“Combat!”, título original). A série foi produzida entre 1962 e 1967, e reprisada nas décadas seguintes, conseguindo uma legião de fãs em todo o mundo. Sábados e domingos, às 14 horas. Passa um episódio completo a cada dia. Recomendo com o mesmo entusiasmo que o assistia quando criança.

Combate retrata as aventuras de um esquadrão do exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, logo após o Dia D, quando os aliados invadiram a Normandia e começaram a expulsar os nazistas dos países ocupados na Europa.

O que transforma Combate num cult é o fato de não se restringir a mostrar trocas de tiros entre soldados. O tiroteio apenas faz parte de diversas histórias que acontecem naquele cenário de guerra. É ali, no front, numa situação limite, que dramas pessoais são mostrados e analisados de maneira empolgante.

O esquadrão, comandado pelo tenente Hanley (Rick Jason), tem uma patrulha fixa, integrada pelo sargento Saunders (o excelente Vic Morrow, pai da atriz Jennifer Jason Leight), e os soldados Cage, Kirby e Baixinho (Little John), além de Doc (o médico).

Entre os atores convidados, temos mais um esquadrão de astros, como Charles Bronson, James Franciscus, Claude Akins (Xerife Lobo), John Cassavetes, Lee Marvin, Telly Savalas (Kojak), Robert Duvall, Dennis Hopper (Sem Destino), James Caan, Bill Bixby (O Incrível Hulk), Fritz Weaver, Nick Adams (O Rebelde), James Coburn e Ricardo Montalban (Ilha da Fantasia), entre outros.

Atrás das câmeras, a série contou com diretores que depois se consagraram no cinema, como Robert Altman (Mash, Dr. T e as Mulheres, Nashville etc). Mais informações podem ser conseguidas num site excelente: www.combatfan.com.

Em Combate, não há nenhuma manifestação a favor da guerra. Em um dos episódios, um médico alemão se une ao médico americano para salvar a vida de uma criança francesa. Em outro, um soldado ajuda um colega, que lhe devia dinheiro de jogo, e é acusado de só ter feito aquilo por causa da dívida. “Não”, ele diz. “Eu o ajudei porque era o meu dever.”

Lições de dignidade, caráter e amor pelo semelhante tornam Combate uma série que pode ser vista a qualquer tempo, independente de sua ação transcorrer na Segunda Guerra Mundial. São lições das quais nunca devemos nos afastar, seja qual for a guerra, pessoal ou social, em que nós somos os personagens principais.

Cidadão Kane (1941)

“I don’t think there’s one word that can describe a mans life.”

A partir de 1952, a revista inglesa “Sight & Sound” resolveu fazer uma enquete internacional, entre críticos e diretores de cinema, para escolher os melhores filmes de todos os tempos.

Naquele ano, “Ladrões de Bicicleta”, já abordado aqui, ficou com o primeiro lugar na lista dos profissionais de cinema. Os editores da revista decidiram, então, realizar uma pesquisa semelhante a cada dez anos. Em 1962, “Cidadão Kane”, realizado por Orson Welles nos Estados Unidos em 1941, e praticamente desconhecido pelo grande público, chegou ao primeiro lugar da lista. E nunca mais saiu.

A enquete foi repetida em 1972, 1982, 1992 e 2002. Muitos filmes entraram e saíram da lista, mas “Cidadão Kane” permaneceu ali, intocável, em seu primeiríssimo lugar.

E o que faz com que um filme realizado há 70 anos possa ainda encantar críticos e diretores de cinema? O que ele tem de tão diferente assim? Essa é uma pergunta que gera dezenas, talvez centenas, de respostas. Uma resenha é pouco para se falar de “Cidadão Kane”. Um dia é pouco também. Assim, recomendo aos mais pacientes, e cinéfilos de carteirinha, que sigam o meu exemplo e vejam esse filme inúmeras vezes. A cada exibição, tenho certeza que o espectador vai perceber algo que não tinha observado antes.

A câmera sobe lentamente pelo portão do palácio de Charles Foster Kane. Fusão após fusão, chega ao seu leito de morte. Close em seus lábios. Ele diz: “Rosebud!”. E morre.

A partir daí, todos querem saber: quem, ou o quê, é “Rosebud”? Por que um milionário, no seu último suspiro, disse essa palavra? Ele teve tudo que quis na vida, poderia se lembrar de qualquer pessoa, qualquer coisa que fosse importante em sua vida. E disse “Rosebud”?

O filme passa então a acompanhar um repórter, que entrevista muitos que tiveram contato com Kane ao longo da vida. Gente que gostava dele, gente que o detestava… Qual o mistério por trás de “Rosebud”?

Quem for muito atento, vai ver diversas pistas sobre “Rosebud” logo na primeira exibição. Mas, muita gente não vai perceber nem quando o segredo é revelado, mesmo que ele surja do tamanho de um ônibus na tela. Digo por experiência própria. Como vi dezenas de vezes, várias pessoas, na saída do cinema, me perguntavam: “Mas, afinal, quem é Rosebud?”

Sim “Rosebud” surge em toda a tela, ocupa todo o espaço da cena. Mas, mesmo assim, muita gente não percebe, não consegue ver “Rosebud” ali! E a cena é longa! A câmera pára o seu longo travelling e nos mostra “Rosebud”. Mas, repito, muita gente não vê!

O repórter, como nós, espectadores, está ali tentando descobrir mais sobre a vida do milionário Charles Foster Kane. E tudo indica que “Rosebud” é a chave para a descoberta de tudo. Um locutor, que acompanha a trajetória do repórter, como num cinejornal, num documentário, pergunta: “Será possível desvendar a vida de um homem?”

Essa pergunta é transferida para nós. Sim, nós, os espectadores. Nós deixamos de ser passivos espectadores e temos que procurar a resposta também!

Kane, através de vários flashbacks, nos é mostrado “quase” por inteiro. Uma criança pobre que foi entregue a um tutor e se tornou um dos homens mais ricos do mundo. Olhando assim, muitos podem pensar: “Então, ele foi um homem feliz! Deixou de ser uma criança pobre e teve tudo o que uma pessoa poderia ter nessa vida.”

Será?

Orson Welles fez essa obra-prima quando tinha apenas 25 anos. As pessoas podem não gostar dele, podem não gostar de “Cidadão Kane” e dos outros filmes que ele fez. Mas, alguém duvida que era um gênio, que estreou no cinema produzindo o filme que é considerado ainda hoje o maior de todos os tempos? Eleito por críticos e diretores de todas as partes do mundo, desde 1962?

Quem não é cinéfilo de carteirinha pode torcer o nariz para esses questionamentos. Pode achar tudo mera arrogância. Pode enumerar centenas de filmes melhores do que “Cidadão Kane”.

Tudo bem. Mas, crie coragem e veja uma segunda vez. Lá estará uma cena que você não tinha percebido. Veja uma terceira vez. Lá estará outra cena. Parece outro filme. Em que ano estamos? Qual a idade de Kane agora? O filme vai e volta no tempo, pois diversas pessoas o conheceram em épocas diferentes. Mas, quem é Kane? Quem é “Rosebud”?

A importância de “Rosebud” na vida de Kane é mostrada muitas vezes. Talvez o repórter não perceba, talvez seus amigos mais íntimos não percebam. Talvez você, espectador, não perceba numa primeira exibição. Porque “Rosebud” representa o que temos de mais profundo em nossos corações, nossos sonhos mais belos, nosso ideal de pureza e felicidade.

Isso é fácil de encontrar nesse mundo?

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Bill Falcão é editor do Jornal da Lua.

Ladrões de Bicicleta (1948)

Estréia do queridíssimo Bill Falcão como o mais novo autor do Le Matinée!

Tudo por uma bicicleta

“There’s a cure for everything except death.”

Muitas coisas na vida nos emocionam. Quando ganhamos um cachorrinho, por exemplo, e isso nos alegra. Ou quando esse cachorrinho morre e ficamos sós. É o momento da dor.

No final da Segunda Guerra Mundial, a Itália era um país destruído. Muitas pessoas não tinham mais nada e tentavam reconstruir suas vidas. Nesse cenário, um grupo de cineastas e roteiristas se uniu e decidiu que aquele era o momento propício para a realização de filmes mostrando aquela realidade.

Foi assim que surgiu o neo-realismo, um dos movimentos mais importantes da história do cinema. Dentre as grandes obras-primas produzidas naquele período, destacamos o filme “Ladrões de Bicicleta”, dirigido por Vittorio De Sica em 1948.

Logo na primeira sequência, vemos um homem pobre esperando o chamado para conseguir um emprego. Ele é chamado. Seu trabalho será colar cartazes pela cidade. Mas ele é logo avisado de que, para isso, precisa ter uma bicicleta.

Ele tinha uma bicicleta. Mas estava numa loja de penhores, pois ele, a mulher e o filho precisavam comer e não tinham dinheiro.

Sua mulher resolve que pode trocar a bicicleta pelos lençóis e fronhas da casa. A bicicleta era mais importante.

De Sica, como era costume no neo-realismo, não chamou atores famosos. Procurou pessoas comuns nas ruas italianas e encontrou dois atores maravilhosos, que interpretaram o pai, o que precisava da bicicleta, e seu filho, um garoto de cerca de oito anos.

E o homem vai trabalhar. Ele segue alegre para o seu primeiro dia de trabalho.

Num momento em que está distraído, colando um cartaz, surge um rapaz e rouba sua bicicleta.

Ele corre, pede ajuda, mas perde o ladrão de vista. Estamos no fim de semana. E ele tem até segunda de manhã para recuperar sua bicicleta, ou perderá seu tão aguardado emprego, depois de não se sabe quanto tempo desempregado.

O pai, ajudado pelo filho, parte então para uma busca desesperada pela preciosa bicicleta, onde ele iria carregar os cartazes e o balde de cola para garantir o sustento da família.

Nessa busca, nos deparamos com todos os dilemas, todos os dramas, todas as contradições do homem moderno. De Sica consegue tirar momentos sublimes daquela busca. Pai e filho estão sós num mundo indiferente à sua dor. E percebem que estão cercados por dores semelhantes. Cada qual procura um remédio, um milagre, uma cura para suas vidas.

“Ladrões de Bicicleta” figura tranquilamente entre os dez maiores filmes que já vi na vida. Não é e nunca será datado, enquanto nosso planeta sofrer aqueles dramas que vemos na tela. A cena final, quando o filho aperta a mão do pai no meio da multidão, é de partir o coração da pessoa mais insensível do mundo.

E isto era o que os idealizadores do neo-realismo queriam dizer. Que não podemos fugir, que a realidade que nos cerca não permite isso. Não há fuga. Vamos sorrir com a chegada de um cachorrinho para alegrar nossa vida. Ou vamos chorar no dia em que uma doença qualquer o tirar de nós.

* Bill Falcão é editor do Jornal da Lua.