Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010)

“I’m in ‘lesbians’ with you”

Há algum tempo eu vinha ouvindo falar (e muito bem!) de Scott Pilgrim Contra o Mundo, o filme teve sua estréia no último verão americano na famosa convenção de quadrinhos Comic-Con (não havia melhor lugar para sua estréia) e teve posterior estréia em todo o circuito americano. No Brasil o filme estreiou recentemente embora a sua estréia tenha sido bastante tímida não só aqui como no resto do mundo.

O filme é uma adaptação da série de estórias em quadrinhos (daqui em diante “HQ”) Scott Pilgrim, de Bryan Lee O’Malley. O longa é produzido, escrito e dirigido por Edgar Wright, do qual eu não conhecia mas confesso que depois de assistir a esse filme fiquei curioso para conhecer seus outros trabalhos. Ele está responsável pelo roteiro da adaptação de Tintin para as telonas, previsto para 2011.

Até o momento nunca li nenhuma das HQs de Scott Pilgrim, portanto essa resenha não terá um caráter comparativo com a obra original. Escreverei aqui a minha opinião sobre o filme como uma obra à parte e isolada.

A trama do filme se volta em torno de Scott Pilgrim, um garoto de 22 anos que toca baixo em uma banda de garagem chamada “Sex Bob-Omb”. Apesar de seu jeitão meio loser, o garoto tem um histórico com garotas bastante intenso, uma delas também fazia parte de uma banda, os “The Clash at Demonhead”, e o largou após assinar um contrato com uma gravadora e ficar famosa.

O filme começa com Scott contando sobre a sua nova namorada para os seus amigos e integrantes de banda (uma delas, a bateirista, inclusive, é ex-namorada de Scott). A “nova” nova-namorada de Scott é a chinesa Knives Chau, uma estudante de 17 anos e stalker oficial da banda de Scott nas horas vagas (toda rock band tem sua groupie).

Tudo vai bem (ou aparentemente bem) no namoro nerd sem beijos de Knives e Scott, até o momento em que Scott conhece a garota de seus sonhos, literalmente: Ramona Flowers. Depois de muitas cenas engraçadas com as tentativas de Scott em se aproximar de Ramona, os dois finalmente saem juntos e engatam em um namorico, ou quase isso.

Porém o que Scott não esperava é que para ficar com Ramona, ele terá de derrotar seus 7 maléficos ex-namorados. Bem isso mesmo. Os ex de Ramona surgem do nada para um combate com Scott (um de cada vez, é claro… ou às vezes 2 rs).

Os 7 maléficos ex-namorados de Ramona


O roteiro se resume nisso, na luta de Scott com os 7 maléficos ex-namorados de Ramona para conquistar o seu amor, mas o que realmente se destaca em Scott Pilgrim é a forma como a estória é contada.

Logo no início do filme a vinheta da Universal é exibida numa versão de 8-bits, imitando as aberturas dos jogos de vídeo-games clássicos da década de 80. Aqui os expectadores já são alertados de que se trata de um filme para os amantes dos games. Sacada genial!

Outras referências aos games podem ser notadas principalmente nas lutas entre Scott e os 7 ex-namorados. Os golpes de Scott são acompanhados de pontuações (os chamados hits) e efeitos sonoros que lembram os de um jogo de vídeo-game. Você realmente tem a impressão de estar assistindo a uma luta de vídeo-game!

Mas as referências aos games não estão somente nas lutas, elas estão no filme todo, como na cena em que Scott vai ao banheiro e esvazia a “barra de xixi”. Simplismente incrível rs

Destaque também para as onomatopéias que estão sempre presentes durante todo o filme. Nos quadrinhos elas tem a função de expressar som, para deixar a leitura mais próxima da realidade. Aqui, elas acompanham o som original, mesmo o som estando lá, fazendo com que a função da onomatopéia seja “perdida”. Porém aqui funciona muitíssimo bem, pois deixa a menor distância entre o filme e a HQ original, além de proporcionar um impacto visual interessantíssimo.

A atuação propositalmente exagerada, além de cômico, também contribui para construir um clima de HQ, onde os é comum os personagens assumirem formas exageradas para expressar seus sentimentos. Em nenhum momento a atuação parece artificial ou forçada por conta disso, a direção e elenco fizeram um excelente trabalho deixando tudo muito natural, em especial Michael Cera no papel principal. Conheci o trabalho dele no indie cult Juno (2007), mas neste ele está ainda melhor.

Para os que conhecem o mangá japonês Nodame Cantabile e sua série de TV em live-action, eu particularmente achei que esse filme tem muito em comum com o live-action, no que diz respeito as onomatopéias, atuação exagerada/caracterizada e recursos visuais usados para lembrar a leitura de um mangá.

A direção dinâmica merece um parágrafo separado nessa resenha. A forma como cada cena se “dilui” na cena seguinte é feita com maestria pelo diretor. As transições de cena que poderiam ser um fade-out sem graça como na maioria dos filmes, são dinâmicas e interligadas com a cena anterior. O diretor faz muito uso de elementos em movimento para fazer a transição de cenas. A rapidez como as cenas fluem também contribui para esse dinamismo. É raro ver um diálogo simples com duas câmeras intercalando entre os personagens que estão dialogando (recurso esse que muito se vê na maioria dos filmes). Aliás o filme é bastante carregado no diálogo e as falas são executadas em uma velocidade maior do que se pode ver na maioria dos filmes (eu particularmente gosto muito disso!). Fora isso tem sempre alguma coisa acontecendo que complementa a cena principal, é dificl até de acompanhar tudo que está acontecendo! Assim é legal pois faz com que você assista ao filme mais de uma vez para reparar nos detalhes que deixou passar na primeira vez =)

A trilha sonora é excelente, com muita guitarra e baixo em pegadas folk, punk, indie e glam rock. Há também músicas originais, escritas e compostas especialmente para o longa, que são cantadas pela banda de Scott, “Sex Bob-Omb”.

Infelizmente o filme não teve um bom desempenho nas bilheterias americanas e do resto do mundo. O longa até o momento não arrecadou nem a quantia necessária para cobrir o seu custo de produção, que foi de US$ 60 milhoes. Ou seja, lucro zero até o momento =( Ainda falta estreiar em alguns países, mas dificilmente esse cenário vai mudar, o que diminiu as chances de uma continuação, que nesse caso eu acho que merecia!

Se continuar assim, vai virar cult. Já virou.

Por último, a sequência de abertura com os créditos é incrível! Uma das melhores que eu já vi! Total punk rock new wave!

Trailer:

Sakuran (2006)

“Don’t f*** with me”

Minha resenha de estréia aqui no Le Matinée! Primeiramente, agradeço ao convite da Natália Xavier para contribuir com o blog, daqui pra frente vou escrever algumas resenhas sempre que houver algum filme interessante pra comentar =D

Minha primeira escolha é um filme japonês chamado Sakuran. O filme é baseado em um manga de mesmo nome, foi lançado no Japão em 2007 e é o trabalho de estréia como diretora da conceituada fotógrafa japonesa Mika Ninagawa. O filme é uma versão moderna (e muito colorida!) de um dos símbolos culturais mais clássicos do Japão: as gueixas.

O filme se passa durante a Era Edo (período da história do Japão que vai de 1603 a 1868) no famoso distrito de prostituição de Yoshiwara (que existiu de verdade!).

Ainda quando criança, Kiyoha (embora esse não seja o seu nome verdadeiro) é vendida por sua mãe para os proprietários de um dos antros de prostituição de Yoshiwara e, a partir de então, ela passa por um treinamento para se tornar uma gueixa. Durante o decorrer do filme, Kiyoha ganha diferentes nomes, que representam a sua posição hierárquica perante as demais gueixas do antro.

Por nunca ter aceitado o fato de ter sido vendida por sua mãe, Kiyoha mostra-se uma aprendiz extremamente rebelde, não obedecendo as regras do local e deixando a clientela a desejar. Sim, em alguns casos ela se recusa a fazer sexo com os clientes mais importantes (leia-se, rico$) que frequentam o local.

Apesar da rebeldia, Kiyoha acaba se destacando dentre as demais gueixas por sua beleza e atitude, tornando-se a gueixa mais requisitada pelos clientes. Isso gera uma rivalidade entre Kiyoha e a oiran do estabelecimento, que vê seu posto de gueixa-mor ameaçado.

Pra somar ainda mais à rebeldia de Kiyoha, ela se apaixona por um dos clientes e depara-se com a impossibilidade de amar alguém.

O título do filme é um trocadilho com as palavras “Sakura” (flor de cerejeira) e “Oiran” (gueixa de maior nível). No antro onde Kiyoha vive e trabalha há uma árvore de cerejeiras que nunca floresceu, Kiyoha então promete a si mesma que o dia em que a árvore florescer será o dia em que ela deixará o antro.

O filme é muito interessante por mostrar esse lado obscuro do mundo das gueixas nipônicas, que eu particularmente sempre achei muito curioso. Nesse sentido, acredito que o filme deve assemelhar-se com Memórias de Uma Gueixa (2005), mas esse eu ainda não assisti. Fiz algumas pesquisas prévias e pelo que eu notei das opiniões de pessoas que assistiram os dois filmes, Sakuran parecer ser um pouco menos romântico do que Memórias de Uma Gueixa.

É um tanto bizarro e chocante assistir à cena onde as gueixas são expostas aos homens, como se estivessem em uma vitrine de uma loja, e ouvir os comentários dos dois lados: quem está de fora e quem está de dentro da “vitrine”.

A fotografia e direção de arte mereciam uma resenha à parte, pois foi o principal motivo pelo qual me despertou interesse pelo filme (pois eu não li o manga original). Como mencionado anteriormente, esse é o primeiro trabalho como diretora da fotógrafa Mika Ninagawa, conhecida por suas fotografias de cores tão vivas que deixaram até o diretor espanhol Pedro Almodóvar impressionado.

O filme todo é um atrativo aos olhos. Absolutamente todas as cenas são visualmente impecáveis, e não é exagero! As cenas parecem saltar dos trabalhos fotográficos de Ninagawa, a diretora conseguiu com êxito transceder a beleza exótica do mundo das gueixas para as telonas.

Uma das marcas registradas da diretora é o uso de peixes dourados (kingyo em japonês, goldfish em inglês). Segundo a oiran do estabelecimento, ao retornarem ao rio, peixes dourados tornam-se carpas, e que somente mantendo-os aprisionados em aquários é possível conservar a sua beleza. Essa comparação é usada pela oiran para justificar o aprisonamento de Kiyoha, e durante todo o decorrer do filme os tais peixes dividem cena com os personagens. Logo na entrada do antro, na fachada, tem-se um grande aquário com muitos peixes dourados. Os impressionantes enquadramentos de Ninagawa fazem paracer que os peixes voam sobre a cena. Mais alguns segundos e Ninagawa nos revela que se trata apenas de um truque de primeiro e segundo plano com o aquário onde os peixes habitam.

Outro fator interessante é a feminilidade da produção, que teve a direção, roteiro e trilha sonora feitos por mulheres, sem contar o elenco que é composto em sua maioria por mulheres. Progesterona pura!

Por outro lado, o filme comete o mesmo “erro” da maioria dos filmes japoneses: a lentidão. Embora visualmente incrível, a direção é extramente devagar, as cenas correm em uma certa marcha lenta, porém típica dos filmes orientais. Talvez esse ritmo seja proposital para o expectador melhor apreciar o visual das cenas, mas particularmente eu gostaria de um pouco mais de dinamismo.

Para os amantes de uma bela direção de arte e fotografia, eu mais do que recomendo!

Deixo aqui também o site dessa talentosíssima fotógrafa, da qual eu já virei fã =D

http://www.ninamika.com/

Trailer: