Cidade dos Sonhos (2001)

“No hay banda!”

Estamos acostumados a encontrar razão e respostas para a maioria dos filmes, principalmente aqueles de mistérios. Quando uma trama começa a criar nós de incógnitas, é natural esperarmos (e termos por fim) praticamente a maioria das respostas respondidas, ou mais ou menos mastigadas pra gente fazer nossas próprias interpretações. Mas Lynch adora tirar sarro, botar miniaturas de pessoas com luzes azuis e você fica igual um bocó procurando sentido e fazendo teorias pra explicar a psicologia de todas as coisas. Bom, não tente, e se você gosta de todas as respostas apresentadas num filme (já que não temos na vida real), vá ler Agatha Christie. Pois Cidade dos Sonhos vai de nada a lugar algum, e mesmo você descobrindo certas coisas do filme, e até mesmo as principais que chegam a ser expostas quase no final, muitas coisas ficarão ainda sem respostas, simplesmente porque não tem mesmo. Nem Lynch sabe.

Aí tem todo o tipo de opniões: Os que adoram o filme e acham respostas (das mais absurdas as mais coerentes), os que dizem adorar, porque perdem o lado cult se falar que não gosta do trabalho de Lynch, os que gostam do filme graças a essa tiração de sarro por parte do diretor além das experiências sensoriais típicas de Lynch, como luzes, trilha e bizarrice (acho que me encaixo aí), e por fim, os que odeiam porque de fato, ao final do filme você solta um ululante WHAT THE FUCK?!

Uma coisa é certo: o título do filme é um spoiler a parte. Não vejo razão de terem traduzido uma vez que o título original (Mulholland Dr.) já diz muito sobre a temática do filme, sobre uma região em Hollywood, um local onde artistas vivem e se suicidam, seja por infelicidade da vida, ou pelo fracasso de suas carreiras.

Betty (Naomi Watts) vai pra casa da tia e encontra uma moça (Laura Harring) que diz não se lembrar de nada de sua vida a não ser o fato de ter sofrido um acidente de carro. Esta é a primeira parte do filme, mesclando cenas que parece não ter pé nem cabeça, com pequenos takes curtos de elementos aleatórios e muitas diquinhas espalhadas por todo o longa, que é preciso vê-lo mais de uma vez pra poder captar certas coisas. Como sempre temos pessoas fazendo coisas estranhas (como um dos mafiosos que cospe café, que na realidade é o próprio Angelo Badalamenti, responsável pela trilha do filme), efeitos toscos e pessoas monocromáticas seja em miniatura ou num plano surreal (que dá um puta medo mesmo assim. Aliás, acho que só Lynch consegue fazer algo propositalmente tosco que dê medo ao mesmo tempo), uma moça com uma sombra azul cintilante da Avão, cantando num palco uma música pra lá de devagar, e claro: anões, cortinas vermelhas, caretas, sintetizadores e todo universo que você também encontra em demais trabalhos de Lynch, como o próprio Twin Peaks.

Me pergunto do que é feito o cigarrete de Lynch...

Cidade dos Sonhos não é um filme com muitas respostas, não tente filosofar e desmistificá-lo. Fica uma sensação estranha quando tudo termina, não só por todo o nó da sua cabeça, mas pela própria sequencia totalmente não linear, perdidas ao longo do filme que não permite você ser capaz de botar numa ordem coerente. A grande dúvida que ficou pra mim na realidade é: Qual é a droga forte que Lynch usa pra fazer essas coisas???!

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