A Malvada (1950)

“Nice speech, Eve. But I wouldn’t worry too much about your heart. You can always put that award where your heart ought to be.”

De diálogos afiados, a grande maioria pela fantástica Bette Davis que o que falta de beleza em seu rosto, sobra de talento em todos os papéis que faz. Aqui, ela é Margo Channing, uma grande atriz do teatro, arrogante e cheia de deboches. Mantém um relacionamento com Bill, diretor da maioria de suas peças (Gary Merrill), e também amiga do roteirista com sua mulher Lloyd e Karen (Hugh Marlowe e Celeste Holm).

Mas, não é assim que começa a história…

Há um diálogo bem construído logo no início com a voz de DeWitt (crítico teatral, interpretado por George Sanders), intercalando por vezes com comentários de Karen, sobre uma grande premiação que estava a acontecer naquela noite. O prêmio de melhor Revelação então é anunciado para Eve Harrington (Anne Baxter). A câmera então congela nesta cena para podermos voltar ao passado e sabermos Tudo sobre Eve (exatamente o título original do filme). Eve, uma personagem criada cuidadosamente, cujo até mesmo o nome não foi colocado em vão. Eve, é a biscate da vez, e sim, pronto falei. Aquela que passamos o filme todo desejando alguém puxar os cabelos dela até ficar igual a cabeça do Cebolinha. Engraçado que quando temos Bette Davis no papel, soa tão contraditório termos um personagem mais cruel do que Bette pode ser. Mas, convenhamos… se fosse Bette a ovelha negra da história, ela daria um jeito de nos cativar. Se tem atriz mais bruaca e apaixonante ao mesmo tempo em seus papéis, essa foi Davis.

Mas, voltemos ao foco, até porque Anne Baxter não falha em sua atuação. Eve entra em cena no flashback como uma maltrapilha (como polidamente descreve Margo logo em sua primeira cena) que na maior humildade, passa a ficar sempre do lado de fora dos teatros, idolatrando Margo como uma admirável mulher e atriz. Logo, Karen se comove com a garota e convida esta a realizar seu “sonho” de conhecer Margo. Não demora muito para Eve ser uma espécie de faz de tudo para Margo e desta forma conquistando posições mais relevantes no mundo das celebridades.

O interessante aqui é que o diretor Joseph L. Mankiewicz não se preocupou em nenhum momento em mostrar alguma das duas mulheres atuando no teatro. A mensagem é mostrar como o foco de celebridades pode ser tão volúvel, o que uma mulher pode fazer para conseguir o que deseja, e outros detalhes metafóricos como interpretações, máscaras, farsas e subornos. Todos personagens possuem uma qualidade peculiar, e Addison DeWitt o crítico teatral que parece não ter destaque em boa parte do filme, é responsável por um diálogo avassalador contra Eve, num drama e terror psicológico para a garota. Ele foi o vencedor da noite do Oscar em que ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel. E não vamos esquecer jamais, que aqui temos um dos primeiros papéis de destaque para a belíssima Marilyn Monroe fazendo o papel de Miss Casswell, mais uma das atrizes que se vende aos grandes dramaturgos para ter fama e sucesso. Sua voz doce e seu olhar chama atenção mesmo nos pequenos takes que participa.

Bette Davis acaba saindo de foco nos últimos minutos do filme, mas todas suas falas foram bem construídas, deixando uma personagem homogênea com alfinetadas que atraem mais o espectador a medida que Eve vai mostrando sua faceta de malvada. Sem dúvida o filme não seria o mesmo se até Claudette Colbert atuasse no lugar de Davis, como foi cogitado na época das filmagens. Indicado a 14 Oscar, maior número de indicações junto com a novelinha de James Cameron anos mais tarde – e vencedor de Melhor Filme – A Malvada é um teatro a parte.

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