Educação (2009)

“It’s funny though, isn’t it? All that poetry and all those songs, about something that lasts no time at all.”

A graça do diretor Lone Scherfig aqui, foi mostrar como um filme cujo o roteiro está pra lá de batido, pode trazer uma novela interessante se todos os demais elementos forem cuidadosamente tratados com requintes de perfeição. A Trilha de Educação é esplêndida. O Figurino, direção de Arte e fotografia de Educação são brilhantes. O elenco? Carey Mulligan e Peter Sarsgaard como a duplinha principal nada fraca e ainda Alfred Molina que por vezes destaca mais que a própria dupla principal.

Jenny (Carey Mulligan)  é a garota de 16 anos, nerd com toda a força de seu cerebelo, que se destaca nas aulas e garante notas máximas em seu boletim, além de tocar violoncelo muito bem e adorar música. Estudava numa escola somente de garotas, e seu sonho e também orgulho de seus pais, é que Jenny entre na faculdade, mais precisamente em Oxford onde pudesse continuar os estudos e ser uma garota com um futuro brilhante. Com base nesta meta, Jenny não dá tanta atenção ao namoradinho Graham (Matthew Beard) não se importando muito com o interrogatório que o pai (Alfred Molina) faz ao garoto logo nos primeiros minutos do filme.

Porém, o foco de Jenny em ir para Oxford começa a se deturpar quando ela conhece um homem (sim, com pelos pubianos e tudo mais) mais velho e charmoso, que é David (Peter Sarsgaard, que fisicamente lembra muito Ewan McGregor depois de várias doenças sexualmente transmissíveis). Ele tem um carro novo e caro, tem dinheiro, tem charme e tem lá sua beleza. Além do que, se mostra amante de arte e música. Seu olhar tem lá seu teor de sedução e faz com que Jenny em pouquíssimo tempo caísse de amores pelo tiozão. Aí, acontece o inevitável: ela relaxa nos estudos, começa a dar uma de rebelde e a mentir para os pais. David também inventa várias historinhas para os pais de Jenny após também ter conquistado o coração deles, e sempre através da lábia conseguia fazer Jenny ter autorização para sair com ele.

Após as mentiras que David começa a dar visivelmente para os pais de Jenny a gente já percebe que boa coisa o sujeito não é. E aquela média que ele deu com a mãe de Jenny então? “Nossa, a Jenny não me disse que tem irmã mais nova”Ahhh vá!  Mas, você aí, menina que tem lá sua parcela de Laurinha do Carrossel,  se você não for esperta e abrir este parênteses no meio do filme, você se deixa levar pelo galã David. Afinal, todos os detalhes do filme são tão apaixonantes – La Vie en Rose, Paris, casacos felpudos, cavalheirismo, Jazz, vinho e claro, o clima vintage afinal a história se passa na década de 60 – que você esquece que vai chegar o final da trama e algo de trágico deve acontecer. E você sabe também que isso vai partir de David, o cara esquisito que com muita delicadeza persuade Jenny (sua “Minnie”) a perder a virgindade.

Ainda temos no elenco o casal Helen e Danny (Rosamund Pike de Orgulho e Preconceito e Dominic Cooper respectivamente) que fazem os amigos de David e se apresentam super simpáticos para Jenny, tendo estado presentes também nas festas e concertos que David a levava. O casal aparentemente parece não dar muita diferença pro desenrolar do filme, porém eles ajudam a cobrir a névoa entorpecente que é para Jenny aquela vida glamourosa de muito luxo e pouco estudo. Esta, por sua vez, começa a concluir que os estudos não passam de uma perda de tempo e passa a desrespeitar sua professora ou mesmo a diretora da escola. Dado Dolabella diria que ela traiu o movimento Nerds…

Educação trata da comparação muito comum daquela época entre você ser uma dona de casa amélia e dedicada, ou ser a solteirona independente, inteligente e solitária. Ainda bem que vivemos numa época onde visivelmente é possível unir os dois (e fazer o marido preparar o jantar), mas numa época como aquela em que Jenny vivia, ela por um momento escolheu a primeira opção, acreditando ser David o homem de sua vida. Jenny transmite a madura mulher (I feel old. But not very wise como ela afirma no fim) e a inocente garota tola. A santa e a vadia. Enfim, antagonismos femininos que assombram uma juventude confusa num coração apaixonado. A história e toda névoa criada pelo diretor tem uma sensibilidade apaixonante seja num verão Londrino ou num inverno parisiense. Clichê no roteiro? Muito! Final Previsível? Com certeza. Contudo, nada que se jogue fora ou faça você perder seu tempo assistindo.

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Não me abandone jamais (2010)

“We all complete. Maybe none of us really understand what we’ve lived through, or feel we’ve had enough time.”

Do livro de Kazuo Ishiguro, Não me abandone Jamais tem excesso de melancolia. Não cheguei a ler o livro para fazer as necessárias comparações a respeito de uma adaptação. Pela visão daquela que somente viu a versão cinematográfica, este é um drama, que paralelo com a vida amorosa que permeia durante todo o filme, traz metáforas sobre nossa própria existência que nos leva a ponderar sobre nossa vida, e a humanidade.

O ponto forte do filme (um dos, talvez) é o triângulo amoroso e o trio que interpreta: Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield que subestimei e me surpreendeu aqui) e Ruth (Keira Knightley fazendo o papel  secundário, mas ilustre como sempre). Quando crianças, estudavam numa espécie de internato chamado Hailsham. Um belo dia, uma das professoras um pouco chocada com a realidade a respeito do futuro destas crianças resolve contar-lhes a verdade: o destino de cada um, que justifica todos os meios sobre quão bem cuidados eles estavam sendo ali (em aspecto físico). Logo cedo, as crianças encararam sua realidade sobre suas vidas e aceitaram de uma maneira que com o passar do filme vai nos incomodando. Ansiando pela revolução que não chega, antes de analisarmos qualquer razão para o silêncio dos jovens, há no nosso coração a angústia de fazer mudar as coisas.

É pouquíssimo explorado no filme a verdadeira idéia de quem eles são. Poder-se ia acreditar que são órfãos (o que não é sobretudo uma mentira). Os termos sobre encontrar seus “originais” não parece fazer sentido se não é feito uma reflexão sobre o contexto por trás do longa. O que fica na superfície é uma história de amor. Entretanto esta história de amor não deve ser menosprezada, considerando as pessoas que se apaixonam, e o fato a se ponderar sobre Ciência e Evolução VS Sentimento e humanismo.

O triângulo amoroso se dá por uma Ruth invejando o amor puro de Tommy e Kathy, e desta forma, assumindo as rédeas e fisgando Tommy para si, deixando Kathy por um bom tempo como uma solitária capaz de aceitar tudo: Não somente seu próprio destino como a perda de quem ama.

Apesar disto, Kathy sempre esteve lá. Sempre gentil, sempre bondosa, sob lágrimas sentidas ela concordava ou fechava os olhos. É como uma morte silenciosa, da qual a dor que é sentida é superada pela capacidade de aceitação de cada um, sobretudo de Kathy. A gente se pergunta porque raios eles não simplesmente fogem? E foi só quando revi na memória novamente o filme, me dei conta de que quando um ser é criado com um dedo apontando para ele falando sobre os perigos do mundo e sobre a fraqueza humana, este ser sempre estará num casulo. É a Alegoria da Caverna de Platão. Em nenhum momento, Tommy, Kathy e Ruth saíram da caverna para a luz, porque a luz talvez seja o mundo dos loucos e porque foram criados com a manipuladora ideia de que todos deveriam aceitar seus destinos, sem lutar pelo contrário. De uma forma subjetiva, muitos vivem sem a revolução, porque desconhecem esta possibilidade considerando que parte de suas características foram manipuladas por um cérebro maior. Manipulação e a falta de humanismo, talvez sejam os termos exatos que retratam o filme todo, e faz termos cada vez mais pena de nossos protagonistas (independente das desavenças que envolva o triângulo amoroso entre eles) e cada vez mais aversão a quem controla tudo do jeito que as coisas são, inclusive mediante a frieza dos fatos. Bem verdade que estas questões são relativas. Afinal, e se nós fossemos os controladores? Enxergaríamos Kathy, Tommy e Ruth como humanos?

Seja pecando ou acertando, o fato é que isso fica num plano abaixo, quando temos a relação amorosa dos três jovens. Temos 3 pontos da linha de tempo linear que vão se desenrolando conforme o filme. O auge de nossa hesitação, talvez o ponto marcante e profundamente melancólico que o diretor Mark Romanek joga com todas as forças para a tela, é de fato a inocência destes personagens (precisamente em Tommy) e a sua angústia a medida que é chutado e cuspido toda a realidade de uma ilusão alimentada por esta inocência. [COMEÇA SPOILER] Acreditando que através de seus desenhos (da arte) pudessem ver sua alma, Tommy realiza criações compulsivamente na esperança de que pudessem ver pela sua alma, que o amor entre ele e Kathy era verdadeiro e puro. E que desta forma, ganhassem momentos a mais para compartilhar deste amor. “Não queríamos ver suas almas, queríamos ver se possuíam alma. Porém vocês são tudo, menos humanos”. [/TERMINA SPOILER] Apesar de ser difícil compreender estas palavras, pois em quase nenhum momento o filme te dá esta ligação com a ficção científica, o que importa é a decepção estampada em Tommy. O que importa é sua forma de explosão. Um deleite para aqueles que gostam de uma verdadeira carga de tristeza, este é o trecho em que o coração começa a sangrar.

Esquecido pelo Oscar, Não me abandone Jamais não deve ser esquecido como tantos outros dramas que podem emocionar somente na hora. Refletimos então sobre a existência e sobre a humanidade. A parte disto, temos uma trilha sonora expressiva, uma fotografia fria ornando com a trama, e a atuação excelente do trio de atores. Praticamente indispensável.