Cavalo de Guerra (2011)

“Can you imagine flying over a war and you know you can never look down? You have to look forward, or you’ll never get home. What could be braver than that?”

A primeira coisa que pensei após 2 horas e meia de filme foi: O cavalo tem que ganhar o Oscar de Melhor Ator. Não consigo compreender porque ele não foi indicado. Digo, acho uma injustiça animais não serem indicados ao Oscar. Ele se saiu melhor que muitos por aí que andam com duas patas e vão no tapete vermelho exibir seus Armanis. Mas, ok… A Academia é injusta mesmo…

O filme é uma adaptação de um livro infanto-juvenil e também de uma peça de teatro. Nas telonas, recebeu a direção impecável de Spielberg abrigada pelos estúdios da Disney.

Tudo começa com uma cidadezinha da década 10, numa fazenda do qual vivem o Sr. Narracott (Peter Mullan), a Sra. Narracott (Emily Watson) e o filho deles, Albie (Jeremy Irvine). Na primeira cena, vemos a cara boba de Albie admirando uma dupla de cavalos. Num cenário ultra saturado do verde da grama e do azul do céu, não tem como não achar numa primeira instância, que se trata de um filme Sessãozinha da Tarde em que temos um humano mais um animal, resultando um romance feliz. Mas, não. E que bom, pois temos essa sensação mesclada com receio, que vai se dissipando a medida que temos mais conhecimento da história.

O dono daquelas terras, inclusive da fazenda do Sr. Narracott, é Lyons (David Thewlis) que entra num leilão de cavalos e disputa um Pé de Pano com o Sr. Narracott. Para não ficar por baixo, o Sr. Narracott dá um lance maior do que o bolso pode pagar (o que agora é muito comum na nossa sociedade pós cartão de crédito). E eis que ele traz Joey – o cavalo – para a casa por 30 guinéus.

O objetivo do Sr Narracott era fazer o cavalo arar a terra, para favorecer a colheita e assim, ter dinheiro para o aluguel. Entre expectativas alcançadas (comum em filmes de aventura) e pequenos infortúnios, Joey acaba sendo vendido para o exército inglês, com a chegada da Primeira Guerra Mundial. E pronto, já temos o caldo knorr equino do nosso arroz!

O mágico de Cavalo de Guerra – que inclusive é um dos favoritos do Oscar de Melhor Filme esse ano – é a navegação por entre histórias paralelas, a medida que Joey vai “aparecendo” na vida de alguém. Quase sempre temos as piadinhas bobinhas que o cinema inteiro ri, com gansos escandalosos, cavalos empacando e toda patacoada que a gente vê no cinema a la Os Trapalhões. Mas, tudo isso é saudável, não prejudica o filme, ainda mais por ele ter muitos, sim muitos, momentos tristes, principalmente com o cenário da guerra. Uma pena que muitas cenas fortes, que sabemos que estão lá, é de forma gigantesca atenuada para não impactar e não destoar, já que estamos falando de uma produção Disney. O que de fato, nos deixa um gosto infeliz, pois o filme poderia ir da bondade a maldade humana de forma avassaladora, nos dando um impacto muito maior do que apenas insinuações. Entretanto, é preciso destacar a tacada de mestre de Spielberg em deixar sutil certas cenas fortes, com recursos cinematográficos como por exemplo, uma pá de moinho passando na cena, no momento de uma execução alemã.

Jeremy Irvine é um bom rapaz. No começo a gente não vê muita graça nele, mas a medida que seu personagem vai ficando mais complexo, sua atuação convence mais. As cenas de guerra também não são de um modo geral trágicas, pois ainda sim, Spielberg brinca com o cômico e irônico ao nos mostrar uma cena em que dois pólos de soldados (francês e alemão) acabam de certa forma fazendo um companheirismo ao tentar resolver um problema que não é a guerra.

No mais, tem tudo aquilo que a Academia adora pra entregar a estatueta: tem emoção, cegueiras momentâneas, cavalos sofrendo, cavalos pulando, fazendinha feliz, fazendinha infeliz, mortes dramáticas, reencontros fantásticos. Mesmo com a  delicadeza em desferir uma espada, é um filme brilhante. Hollywoodiano claro… mas ainda sim brilhante…

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Sete Anos no Tibet (1997)

“Tell my wife that two years in prison camp is roughly equal ant to four years of marriage and I’m glad to be free of them both.”

Heinrich Harrer (Brad Pitt), é um alpinista austríaco, que em seu ápice de egocentrismo, larga sua esposa grávida e prestes a dar a luz, para poder ir ao Himalaia escalar o pico Nanga Parbat, e desta forma obter mérito e fama. Parte com um grupo de outros alpinistas, em pleno início da Segunda Guerra Mundial, e acaba ficando preso no exterior, afinal, nenhum estrangeiro poderia sair ou entrar de lugar algum.

Foi lá na prisão que ele recebe a carta de sua esposa, falando que quer o divórcio, e o filho dele está bem, obrigada. Com isso, Heinrich muda de idéia de fugir para voltar para casa. E (após inúmeras tentativas de fuga) é com ajuda dos outros alpinistas, incluindo Peter (David Thewlis), que ele finalmente foge da prisão, mas opta em ir para o Tibet, meio sem rumo.

Baseado em fatos reais, e no próprio livro de Harrer, é muito comum Hollywood fisgar expedições como essa para representar nas telas. Expedições esta que mostra a mudança do caráter e estilo de vida de um homem, que acaba amadurecendo enquanto ser humano. Além desta obviedade, Harrer foi parar no Tibet e acaba conhecendo Dalai Lama, que naquela época tinha 14 anos de idade. Era infalível que a história então tomaria este rumo sobre maturidade espiritual de alguém medíocre…

Paralelo a isso, claro que temos as próprias questões históricas, mostrando a cultura do povo Tibetano e como os Chineses acabam derrubando uma cidade sustentada pela paz de espírito. Apesar da bela fotografia, e da capacidade de atuação de Pitt, Thewlis, e do menininho que representa Dalai Lama (Jamyang Jamtsho Wangchuk – e sim, claro que copiei esse nome do IMDb), o filme não traz o suficiente para comover, por mais que tenhamos a história dramatizada do filho de Harrer não querer conhecer o pai, ou ainda da perigrinação dele em evoluir como uma pessoa melhor (que graças a Pitt, vemos de forma consistente se desenvolver ao longo do filme). Infelizmente, ele se perde no enfadonho, por mais que o diretor Jean-Jacques Annaud tivesse em mãos todas as ferramentas para construir uma pérola do gênero. Pois de tão longo, com a saturação dos mantos dos monges tibetanos vermelho e amarelo, causa fome e sonolência para quem assiste.

Considerando uma parcela de sensibilidade desta pobre blogueira, você não termina o filme como uma pessoa melhor ou modificada (como alguns filmes são capazes de fazer), porém consegue por um lado obter carisma pela narrativa, mais por conta da agradável harmonia do povo Tibetano, vinculada com a amizade de Harrer com Peter sendo construída, e nosso protagonista ser capaz de chorar, pelo filho que não conheceu. Voltando para o lado frio da força, eu trocaria o nome do filme para um mais realista: Sete Horas no Tibet.