Johnny & June (2005)

“Cause I got to tell you, my hat’s off to you now, ‘cuz I ain’t never had to drink this yellow water you got here at Folsom!”

Cinebiografias de astros do rock possui um excessivo clichê, que pode ser uma desculpa fácil de se aceitar, considerando que a história se baseia na vida real, e que a vida real destes músicos podem sim ter todo esse clichê. Afinal, todos tinham acessos de raiva, vícios em pílulas ou outras drogas, bebida excessiva e até uma história de amor. No caso de Johnny Cash, o diretor James Mangold decidiu abusar um pouco mais deste último para quem sabe fugir da mesmice. Não acredito que deu muito certo, afinal tem muita mesmice que se bem trabalhada, dá um resultado ótimo, afinal a gente gosta do clichê. E a gente sabe que foi real uma grande parcela de cada história e que os próprios músicos fizeram de suas vidas um clichê. Mas, veja porém Ray, um filme que tem os elementos de outras cinebiografias mas que atingiu resultados muito superiores. E não estamos dizendo que a vida de Ray tem conteúdo mais interessante do que a do Sr. Cash. Ambos tem suas peculiaridades, e Johnny é uma lenda cuja história pode ser muito interessante. Se este filme passou por adquirir uma carcaça de comédia romântica foi culpa do diretor, jamais do personagem principal.

Aqui no Brasil, o apelo amoroso foi mais forte, afinal substituiram a arte do cartaz original, por uma foto do casal, e traduziram o título original (Walk the Line, que nada mais é que um título de uma das músicas do cantor e também uma ironia pro filme todo) para “Johnny & June” como se fosse mais uma história de amor do que a história de Johnny Cash até ele conseguir se recuperar do vício de pílulas e até gravar um álbum num presídio. Bem verdade que a história deste casal foi uma das mais interessantes do mundo do rock que deu início na década de 50, e por mais turbulento que seu começo tenha sido, ele termina de uma forma bonita, levando a gente a crer (ainda mais considerando ser real) que deve existir mesmo essa coisa que uma pessoa é destinada para outra. Afinal, Cash tinha filhas e uma esposa, mas sempre tratou June como sua musa, e após ter finalmente “entrado na linha” mesmo com altos e baixos, ele vive com June por um bom tempo, morrendo quatro meses depois dela.

Contudo, se tem uma coisa que ninguém pode negar é o impactante talento do casal June (Reese Witherspoon) e Johnny (Joaquin Phoenix). Aliás este último tem um destaque maior ainda, representando trejeitos do verdadeiro Cash, o olhar torto e por vezes sonolento por conta dos remédios, o jeito desengonçado de segurar o violão e jogá-lo para trás. E mais: tanto ele quanto Whiterspoon cantaram todas as músicas do filme ao vivo, que nos mostra que o talento aqui vai longe. Phoenix possui um timbre quase idêntico de Cash, numa voz grave e vibrante. Como restante do elenco, figuras interessantíssimas pintam na história, como Roy Orbison, Jerry Lee Lewis e o nosso eterno rei Elvis Presley.

É graças a todos os demais detalhes como fotografia e trilha, além das boas atuações, que o filme chega num nível mais digno de qualidade, a gente perdoa o apelo amoroso até pelo fato de também vermos muito de Johnny Cash ali no longa. Quem sabe, se nas mãos de um Taylor Hackford o filme não nos daria uma narração ainda melhor com um Johnny Cash mais completo (em termos de história, jamais de atuação pois Phoenix está perfeito).