Desejo e Reparação (2007)

“I love you. I’ll wait for you. Come back. Come back to me.”

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DESEJO1Dois anos depois de sua estreia no cinema, o diretor Joe Wright traz um drama (também baseado num livro) cuja história é forte e bem triste.

Logo no começo, vemos numa escala muito pequena, a imagem de um casarão. Começa o barulho de máquina de escrever, e logo somos apresentados a Briony Tallis (representada por 3 atrizes diferentes, uma em cada estágio. A primeira, de 13 anos é interpretada pela jovem Saoirse Ronan). Briony tem a cara fechada, um olhar concentrado, e até mesmo em momentos de descontração, seu olhar ainda consegue ser muito penetrante. Uma característica especial e bem colocada para seu personagem.

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A trilha sonora ritmada pelas teclas da máquina de escrever chamam a atenção, e ela durante várias partes do filme volta a tocar, muitas vezes em sintonia com as ações de Briony.  Ela acaba de terminar sua peça, e o que vemos é uma menina que busca na realidade sinais para dar margem a complexidades maiores, fantasiando e iludindo sua mente, distorcendo os fatos para maior aproveitamento da “história”. Essa é a conclusão que tive ao longo do filme, quando se pode indagar que Briony pode não ter feito o que fez por ruindade ou ciúmes, mas pela simples ambição de dar mais emoção a história da realidade.

E o que Briony fez, é o pano pra manga do filme todo.  Não vale contar nem como parte da sinopse, pois isso estraga o impacto das cenas, mas o fato é que seu próprio título em português, nos dá a ideia de que se trata de alguém tentando reparar seus atos. Alguém com culpa e remorso. E tudo que carrega culpa ou remorso, mexe muito com o coração humano. Aí que está a grande força na história toda.

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E Joe Wright acerta em cheio quando repete as cenas: uma na versão do olhar de Briony e uma digamos que “nossa” onde ele apresenta os fatos de maneira mais natural e mais realista. Pelo menos o que nos parece.

Os outros dois personagens principais na história são Robbie Turner (James McAvoy) um jovem filho da empregada dos Tallis, cujo pai é responsável por pagar os estudos de Robbie, e Cecilia Tallis (Keira Knightley) a irmã mais velha de Briony, bela e que possui um amor até então secreto por Robbie.

[SPOILER]O filme muda de ares, e chega a nos dar picos de consolos e alívio. Como se a história fosse resolvida. E aquela agonia que sentíamos, foi dissipada. O ápice vem mesmo quando vemos a Briony em sua última fase, mais velha, como consagrada escritora, nos dizendo  que nada daquilo que vimos aconteceu de verdade. Que isso era o que ela queria que tivesse ocorrido. Mas não houve chances. E convenhamos, aquilo é de fuder (desculpem a expressão), afinal, por quantas vezes nós mesmos, ao sentirmos remorso de algo, fantasiamos sendo escritores ou não, a hipótese de uma possível solução capaz de reparar aquele erro que partiu de nossas mãos? [/SPOILER].

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Há quem encontre erros em Desejo e Reparação. Visto que a história (que é o mais notável) é uma adaptação de um livro, não dá para tirarmos o mérito de Joe Wright que consegue detalhes e sutilezas gigantescas para melhor, digamos “digestão” da história toda. As repetições de cenas, baseadas nos olhares de Briony ou do espectador, a linha de tempo que pula de um período a outro, o contraste de tons entre a calmaria e a tragédia, é tudo carregado de uma dramaturgia incomum. Wright ainda não tem uma vasta filmografia, mas até agora, Desejo e Reparação é sem dúvida o melhor de seus filmes. E não estamos falando de pouca coisa, visto a qualidade de outros do diretor como Orgulho e Preconceito e O Solista. Vamos aguardar Anna Karenina e ver se esse quadro muda, mas eu acho difícil…

Orgulho e Preconceito (2005)

“But she doesn’t like him. I thought she didn’t like him.”

Assisti no final de semana novamente este filme. E, sabe né gente? Fico assim apaixonada, mimimi. Aliás, já que faz tempo que não escrevo, permitam-me relatar sobre os romances mimimis que tanto adoro…  Geralmente, são os de época. De vestidos longos e dancinhas que lembram Festa Junina de escola, só que nobre. São os 3 principais: O Morro Dos Ventos Uivantes (ok, cheio de tragédia e drama, mas eu amo), Orgulho e Preconceito, e recentemente entrou pra lista Jane Eyre. Todos eles com atores bem selecionados, que você fica assim idiota por uns dias. Heathcliff, Mr Darcy e Rochester.

Bom, chega.

O filme é aquele romance belo que seu namorado fica batucando um Heavy Metal do lado, numa impaciência sem fim. Aquele que mostra figuramente todos aqueles personagens e cenas que sua imaginação projetava quando lia o livro do qual foi baseado. Só que agora o mocinho e mocinha tem rosto, e ganha mais que você. E sim, ele é tão belo quanto você imaginava no livro.

Conhecem a história? Escrito por Jane Austen, já cultuada na Inglaterra, é um lindo romance que gira em torno de (como no nome) orgulho e preconceito. Lizzy Bennet (Keira Knightley) é uma das 5 irmãs que já tem mais de 20 anos e não se casou com ninguém. É de uma família simples e destrambelhada. Acaba conhecendo Mr. Darcy (Matthew Macfadyen) amigo de Mr Bingley, este, que se apaixona por uma das irmãs Bennet, Jane (Rosamund Pike). Mas, Mr. Bingley possui berço de ouro, herdeiro de bons costumes e sapatos limpinhos sem lama. Como se casar então com alguém da família Bennet?

Já a Sra Bennet, mãe das 5 irmãs precisa casá-las, afinal, quando o senhor Bennet morresse, os bens da família passaria automaticamente para o membro mais próximo. Um primo baixinho e bocó e claro, não tão belo.

O dir. Joe Wright estreiou na época este longa e já ganhou os elogios britânicos. Logo, veio mais outra pérola (Desejo e Reparação) e não preciso ainda dizer o quão ansiosa estou para o Anna Karenina (baseado no livro de Tolstói) que traz novamente Keira Knightley no elenco e ainda Mr. Darcy (o ator Matthew Macfadyen) que apesar de segundo plano e com bigode bem felpudo, ainda assim é o Mr. Darcy <3

O filme consegue ser bem fiel ao livro, trazendo um romantismo sutil e europeu, cheio de pureza que nós americanizados não estamos habituados a ver. Talvez é aí que repousa a sensibilidade extrema e o romance puro que a história disperta, intensificada pela paixão reprimida de Mr. Darcy, em contrapartida com a comicidade e ousadia da grande personagem Lizzy. Tanto Keira quanto Matthew trazem essa sintonia na trama, refletindo bem o que sentimos quando lemos o livro por exemplo.

Sempre tenho pé atrás com adaptações repetidas que fazem dos romances (O Morro dos Ventos Uivantes mesmo, que já tá na 5, 8 ou 30 versão) mas este merece uma atenção a mais (assim como o novo de Jane Eyre). Em nenhum momento você percebe uma forçação de barra no romantismo de ambos personagens e até mesmo seus contratempos e encontros ao acaso, são provenientes da obra literária.

Não me abandone jamais (2010)

“We all complete. Maybe none of us really understand what we’ve lived through, or feel we’ve had enough time.”

Do livro de Kazuo Ishiguro, Não me abandone Jamais tem excesso de melancolia. Não cheguei a ler o livro para fazer as necessárias comparações a respeito de uma adaptação. Pela visão daquela que somente viu a versão cinematográfica, este é um drama, que paralelo com a vida amorosa que permeia durante todo o filme, traz metáforas sobre nossa própria existência que nos leva a ponderar sobre nossa vida, e a humanidade.

O ponto forte do filme (um dos, talvez) é o triângulo amoroso e o trio que interpreta: Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield que subestimei e me surpreendeu aqui) e Ruth (Keira Knightley fazendo o papel  secundário, mas ilustre como sempre). Quando crianças, estudavam numa espécie de internato chamado Hailsham. Um belo dia, uma das professoras um pouco chocada com a realidade a respeito do futuro destas crianças resolve contar-lhes a verdade: o destino de cada um, que justifica todos os meios sobre quão bem cuidados eles estavam sendo ali (em aspecto físico). Logo cedo, as crianças encararam sua realidade sobre suas vidas e aceitaram de uma maneira que com o passar do filme vai nos incomodando. Ansiando pela revolução que não chega, antes de analisarmos qualquer razão para o silêncio dos jovens, há no nosso coração a angústia de fazer mudar as coisas.

É pouquíssimo explorado no filme a verdadeira idéia de quem eles são. Poder-se ia acreditar que são órfãos (o que não é sobretudo uma mentira). Os termos sobre encontrar seus “originais” não parece fazer sentido se não é feito uma reflexão sobre o contexto por trás do longa. O que fica na superfície é uma história de amor. Entretanto esta história de amor não deve ser menosprezada, considerando as pessoas que se apaixonam, e o fato a se ponderar sobre Ciência e Evolução VS Sentimento e humanismo.

O triângulo amoroso se dá por uma Ruth invejando o amor puro de Tommy e Kathy, e desta forma, assumindo as rédeas e fisgando Tommy para si, deixando Kathy por um bom tempo como uma solitária capaz de aceitar tudo: Não somente seu próprio destino como a perda de quem ama.

Apesar disto, Kathy sempre esteve lá. Sempre gentil, sempre bondosa, sob lágrimas sentidas ela concordava ou fechava os olhos. É como uma morte silenciosa, da qual a dor que é sentida é superada pela capacidade de aceitação de cada um, sobretudo de Kathy. A gente se pergunta porque raios eles não simplesmente fogem? E foi só quando revi na memória novamente o filme, me dei conta de que quando um ser é criado com um dedo apontando para ele falando sobre os perigos do mundo e sobre a fraqueza humana, este ser sempre estará num casulo. É a Alegoria da Caverna de Platão. Em nenhum momento, Tommy, Kathy e Ruth saíram da caverna para a luz, porque a luz talvez seja o mundo dos loucos e porque foram criados com a manipuladora ideia de que todos deveriam aceitar seus destinos, sem lutar pelo contrário. De uma forma subjetiva, muitos vivem sem a revolução, porque desconhecem esta possibilidade considerando que parte de suas características foram manipuladas por um cérebro maior. Manipulação e a falta de humanismo, talvez sejam os termos exatos que retratam o filme todo, e faz termos cada vez mais pena de nossos protagonistas (independente das desavenças que envolva o triângulo amoroso entre eles) e cada vez mais aversão a quem controla tudo do jeito que as coisas são, inclusive mediante a frieza dos fatos. Bem verdade que estas questões são relativas. Afinal, e se nós fossemos os controladores? Enxergaríamos Kathy, Tommy e Ruth como humanos?

Seja pecando ou acertando, o fato é que isso fica num plano abaixo, quando temos a relação amorosa dos três jovens. Temos 3 pontos da linha de tempo linear que vão se desenrolando conforme o filme. O auge de nossa hesitação, talvez o ponto marcante e profundamente melancólico que o diretor Mark Romanek joga com todas as forças para a tela, é de fato a inocência destes personagens (precisamente em Tommy) e a sua angústia a medida que é chutado e cuspido toda a realidade de uma ilusão alimentada por esta inocência. [COMEÇA SPOILER] Acreditando que através de seus desenhos (da arte) pudessem ver sua alma, Tommy realiza criações compulsivamente na esperança de que pudessem ver pela sua alma, que o amor entre ele e Kathy era verdadeiro e puro. E que desta forma, ganhassem momentos a mais para compartilhar deste amor. “Não queríamos ver suas almas, queríamos ver se possuíam alma. Porém vocês são tudo, menos humanos”. [/TERMINA SPOILER] Apesar de ser difícil compreender estas palavras, pois em quase nenhum momento o filme te dá esta ligação com a ficção científica, o que importa é a decepção estampada em Tommy. O que importa é sua forma de explosão. Um deleite para aqueles que gostam de uma verdadeira carga de tristeza, este é o trecho em que o coração começa a sangrar.

Esquecido pelo Oscar, Não me abandone Jamais não deve ser esquecido como tantos outros dramas que podem emocionar somente na hora. Refletimos então sobre a existência e sobre a humanidade. A parte disto, temos uma trilha sonora expressiva, uma fotografia fria ornando com a trama, e a atuação excelente do trio de atores. Praticamente indispensável.