Twin Peaks (1990-1991)

O LOST da década de 90 (em clima de final de 80), foi uma criação de David Lynch e Mark Frost, numa época em que séries desse estilo, com assassinatos, mistérios em torno de uma cidadezinha interiorana, era novidade. Faço a comparação com LOST, porque da mesma forma que a série virou um vício, Twin Peaks virou também na época em que rolava na TV. Falo isso, acreditando em pessoas que viveram essa época, claro =) Eu só assistia TV Cultura nessa fase…

Laura Palmer (Sheryl Lee) destaca mais como ícone da série do que com sua atuação.

Quando resolvi assistir a série por indicação, levei em consideração dois quesitos: o primeiro, o fato de ter a mão de Lynch. Ou seja, coisa normal não era. Bem verdade que ele fez só os primeiros 7 episódios, da primeira temporada, que inclusive é a melhor. Mas, o toque de birutice sempre esteve presente na série. O segundo quesito, foi a sinopse inicial com a pergunta que ecoou por um bom tempo nas mídias disponíveis da época: Quem matou Laura Palmer? Posteriormente, essa história toda gerou um filme (do Lynch) mas que não obteve sucesso algum, até pelo fato de não mostrar nada que nossa curiosidade já não tenha se alimentado, após ter visto a série.

Kyle MacLachlan como Dale Cooper à esq. e ele atualmente à dir. Tem atuado na série Desperate Housewives.

O episódio piloto, não desperta muita paixão, para você já habituado com as séries desta nova geração. Os sintetizadores oitentistas, a fotografia granulada digna de séries antigas a la A Gata e o Rato, faz você se assustar um pouco e torcer o nariz com certo preconceito daquilo tudo. Mas, são os personagens curiosos, cada um com manias e hábitos esdrúxulos além da grande questão de quem será o assassino de Laura Palmer, que faz você ficar. E depois de no máximo 3 episódios, tudo isso movido por preconceitos inciais vira vício. Bem, pra mim foi assim…

Lara Flynn Boyle interpreta Donna, a melhor amiga de Laura.

Sherilyn Fenn interpreta Audrey, a filha de Horne que também tem grande destaque na série. Atualmente a atriz tem um blog e só: http://sherilynshines.blogspot.com/

O foco dessa série é Kyle MacLachlan (do qual Lynch havia gostado de seu trabalho em Veludo Azul) que interpreta um agente do FBI, Dale Cooper. Ele vai para Twin Peaks, para investigar o caso do assassinato de Laura Palmer, uma garota comum aparentemente, estudante que levava uma vida normal pelo o que se via superficialmente. Cavocando em seus mistérios, mergulhamos na sujeira de Palmer e da própria Twin Peaks, uma cidadezinha de poucos habitantes, calma, e pacata e que segundo o detetive Cooper, tem a melhor torta do mundo…

David Duchovny faz uma ponta ridícula como Denise, uma detetive do FBI que se assume como mulher, na segunda temporada. Não tem efeito nenhum na série, mas quis postar a foto =)

“Fellas, coincidence and fate figure largely in our lives.”

Xerife Harry Truman de Twin Peaks. Se torna braço direito de Dale Cooper.

Nisso, elementos sobrenaturais de todo e qualquer tipo invade a história e obviamente, ilusão mescla com realidade constantemente, oscilando entre sonhos esquisitos com anões dançando, cortinas vermelhas, piso xadrez. O perfeito cenário lúdico de Lynch. E acreditem, por mais toscos que sejam os efeitos, dá medo. Lynch assusta pela tosquice e a cara maluca de seus atores… Vide Bob, a figura enigmática e mais medonha da série, que vez ou outra surge na visão de algumas pessoas. Tudo por vezes fica no ar, despertando nossa curiosidade. Alguns elementos com o tempo são resolvidos e encaixados. E tudo pode dar vazão a discussões a respeito de furos no roteiro ou algo assim. Entretanto, numa série criada pelas mãos de Lynch, todas as peças de fato não são encaixadas e ninguém liga pra isso no final…

“Harry, I have no idea where this will lead us, but I have a definite feeling it will be a place both wonderful and strange.”

Ray Wise é Leland Palmer, pai de Laura.

Depois que descobrimos o verdadeiro assassino de Laura Palmer – que confesso, não imaginava e fiquei em choque quando descobri – a série dá uma boa esfriada, deixando tudo muito menos interessante, mas vale a pena chegar até o final. Até porque, só são 2 temporadas. A primeira com 7 episódios e a segunda com 22 episódios, ficando longo demais e partir do 11, mas ganhando aos poucos força novamente, o suficiente para chegarmos ao final. Após isso, a série foi cancelada, ficando na memória do pessoal e na filmografia estapafúrdia de Lynch…

Para aqueles que já conheciam e gostam da série, segue o link do site do fotógrafo Richard Beymer, que fotografou várias fotos do set de filmagem do Twin Peaks. Só tem foto esquisita =D


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Veludo Azul (1986)

“It’s a strange world…”

A canção de Blue Velvet começa a tocar e em poucos segundos somos apresentados para o belo mundinho típico americano feliz. Foco nas tulipas em alto contraste próximas a um cercado branco, num céu azul com crianças brincando e um senhor regando as plantas. Pela levada da música, nos apaixonamos aos poucos naquele cenário até que o senhor das tulipas cai no chão e um cachorro brinca com a mangueira que esguicha para o céu. A música ainda toca, e sob o gramado verde daquele belo jardim, Lynch nos leva até mais embaixo, onde é mostrado os negros insetos e a escuridão toma forma.

É nesta pequena e rápida cena, que nós temos a ideia da linguagem bizarra e atraente que David Lynch sempre traz, mesclando a perversão e a sedução aparentemente inocente. Todo o bonitinho da pequena cidade de Lumberton começa a mostrar o lado maldoso que se não fica nas entrelinhas, chega à superfície num ápice por vezes cômico, sem a preocupação do diretor se tudo isso é sensato ou não. Interessante o termo que o personagem Jeffrey dá por exemplo, quando Frank está disfarçado: o “bem vestido”. É como se toda a beleza e bondade das aparências, escondesse na verdade um submundo de sexo, violência e perversão.

Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan muito mais inocente do que o agent Cooper que interpretou tempos depois, porém ainda assim convincente) é o filho do senhor que regava as plantas e na volta de sua visita ao hospital, encontra uma orelha cortada, jogada num campo. É dalí que sai o suspense da trama, com Jeffrey – um rapaz que parecia levar uma vida tediosa até aquele momento – indo até a polícia local, e aguçando cada vez mais sua curiosidade em desvendar o mistério.

Com a ajuda de Sandy (Laura Dern, com um cabelo que inspirou tosadores a criar um novo corte para Poodles) ele invade um apartamente do qual uma cantora (Isabella Rossellini) morava, e parecia estar envolvida no crime. O fluxo então passa a ser desenvolvido, e Lumberton deixa de ter a mesma aparência do que causou em seus 4 segundos iniciais.

Somos apresentados à mente insana de Frank (Dennis Hopper em perfeita atuação) que com uma máscara de oxigênio, exterioriza um maníaco de uma forma que causa a impressão de estar possuído. Dorothy, a cantora de Blue Velvet, por sua vez, causa curiosidade e pena, aos poucos que percebemos a perversão da qual era submetida.

“I can’t figure out if you’re a detective or a pervert.”

A trama não é nenhum mistério confuso da qual você não pode nem piscar para não perder o fio da meada. Mas Lynch fisga a atenção com suas cenas carregadas num humor negro, o mesmo em que deitou e rolou anos mais tarde com a série Twin Peaks. Aliás, muito das características do diretor deram início com este longa. Exemplo claro disso, é a bizarra cena em que Jeffrey é espancado por Frank, com a boca suja de um batom vermelho sangue, Dorothy berra por socorro, e uma mulher dança enebriada em cima da lataria do carro, pelo embalo de “In Dreams” de Roy Orbison.

Na época em que o filme foi lançado, houve críticas negativas a respeito da violência sexual exposta no filme, principalmente quando Frank violenta Dorothy com a boca cheia de veludo (azul) e grita um insano “Baby wants to fuck!” Lynch brinca com a ironia para mostrar o sujo e desta forma, Blue Velvet é uma experiência no mínimo intrigante. Cenário e música muitas vezes faz nos afundarmos numa aventura sensorial, do qual cada coisa sem sentido faz parte do jogo. Em uma das cenas em que mostra Jeffrey com o rosto sem corte (pouco após ter sido ferido com uma ponta de faca no rosto) você ainda está se perguntando se é apenas um erro sequencial ou alquilo faz parte de algum tipo de esquisitisse no que tange tempo e espaço dentro do mundo particular de Lynch.

Um suspense de Lynch não precisa causar medo, ser perturbador ou obscuro. Só precisa ser inconvencional e sedutor, com seu jogo de luzes em harmonia.