Piaf – Um Hino ao Amor (2007)

“I can’t? Then what’s the point of being Edith Piaf?”

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piaf1 Cinebiografia sobre a triste história da francesa Edith Piaf, cuja voz marcou e muito a Paris da déc de 40. Interpretada pela talentosa Marion Cotillard que até concordou em tirar as sobrancelhas para representar com exatidão uma Piaf de sobrancelhas finas feitas a lápis (fico aqui na dúvida inclusive… o que seria melhor? Tirar as sobrancelhas como Cotillard para Piaf ou acrescentar uma no meio como Salma Hayek para Frida Kahlo? Eis a questão). A direção fica por conta de Olivier Dahan, e mesmo que nos pareça óbvio é um alívio a língua principal do filme ser o próprio Francês. Do contrário, tiraria toda a identidade do filme, que nem mesmo Cotillard poderia salvar…

O filme alterna em dois momentos do tempo de Piaf: um contínuo sobre sua infância, juventude e ascensão na carreira, e a outra fixa com Piaf já velinha e encurvada, quase estática com um olhar realmente muito depressivo. Com exceção de sua fase como criança, todas as demais são interpretadas por Cotillard, sendo que na fase idosa, era preciso fazer uma maquiagem que levava mais de 5 horas para ficar pronta.

Piaf, tinha uma personalidade peculiar, falava alto, bebia absurdamente, e isso não mudou quando sua vida pulou da miséria de cantar pelas ruas da França para conseguir moedas, até o ápice de sua carreira com seus casacos de pele e seus shows em grandes casas francesas.

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Toda a história contínua sobre a vida da cantora, anda muito devagar, representando na maioria das vezes uma faceta melancólica sobre a tragetória inteira de Piaf. Nem mesmo na sua época de “ouro”, podemos dizer assim, faz nos sentirmos como se Piaf estivesse realmente bem. Claro, com exceção de quando ela vai fazer turnê nos EUA e conhece Marcel Cerdan (Jean-Pierre Martins), um boxeador casado, mas que também se apaixona por Piaf e serve ainda de inspiração para a clássica La vie en rose. A parte, fica de forma quase homogênea uma história realmente deprimente e triste, o que nos emociona principalmente pela voz de Piaf representar tão bem este estado de espírito com sua voz forte, vibrando intensamente seja na cinzenta e suja rua da França quanto no palco de uma casa luxuosa e um público vasto.

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Non, je ne regrette rien, surge quase ao fim do filme, já representando a década de 60, funcionando aqui como um epitáfio para arrancar lágrimas. Mas, ainda assim sua letra nos dá a explicação clara sobre toda a “melancólica” vida de Piaf, de que não há nada a se arrepender, e que apesar de uma tragetória triste, ela fez do seu jeito. Era como se Piaf nos desse a satisfação e resposta sobre a conclusão de sua vida. Que não se trata sobre a tristeza e sim, sobre amor. Ainda que belo, foi ainda assim pra mim um filme triste, o que pode nos levar a divergências sobre gostar ou não do todo…

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Meia Noite em Paris (2011)

Luis Buñuel: A man in love with a woman from a different era. I see a photograph!
Man Ray: I see a film!
Gil: I see insurmountable problem!
Salvador Dalí: I see rhinoceros!

Mestre dos diálogos elaborados, Woody Allen inicia a história com a tela dos créditos iniciais (cuja a tipografia é a mesma em todos os seus filmes) e a voz de seus personagens discutindo um dos focos centrais do filme – a bela e poética Paris, palco da paixão e demais atividades sensoriais para muitos corações, principalmente aqueles que apreciam o passado.

Owen Wilson é Gil Pender, um argumentista de Hollywood que se arrisca a escrever seu primeiro romance, baseado num vendedor de uma loja de relíquias. Com sua noiva Inez (Rachel McAdams) ele passa alguns dias em Paris junto com os sogros, e apesar de ser apenas uma viagem, Gil tem a vontade constante de se casar e viver lá, o que foge da vontade de sua noiva.

É notável a péssima relação entre Gil e Inez, representado até na simplicidade em Gil achar Paris bela na chuva e Inez detestar, vomitando futilidades. Eis que ela acaba encontrando Paul (Michael Sheen), seu antigo professor por lá ( bonitão, culto e arrogante) e numa das noites em que ela deixa o noivo no vácuo pra dançar com Paul, Gil perdido nas ruas parisienses é convidado a entrar num carro dos anos 20 – a Época de Ouro tão admirada por ele.

Como o personagem de Gil se transporta para 1920 Woody não explica e nós nem esperamos por isso em nenhum momento do filme. É da poesia e magnitude do cineasta falar por divagações e suposições irreais contemplando mais a narrativa do que a vontade de encaixar peças que diante da história a ser contada, não tem relevância alguma.

E é através desta imersão ao passado que Gil conhece pessoalmente nomes tão notáveis e tão admirados por ele como Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Outros personagens também são mostrados para deleite dos nostálgicos e é de se espantar a qualidade de interpretação que alguns representam estes ícones, como Adrien Brody fazendo um Salvador Dali maravilhosamente bem, mesmo que numa breve cena.

É neste passado da era de ouro que Gil encontra Adriana (Marion Cotillard numa sensível e belíssima atuação), uma amante de Pablo Picasso do qual acaba se apaixonando. E oscilando entre as duas eras, Gil se vê dividido e confuso em relação ao seu noivado morfético e sua paixão sustentada pelo romantismo poético de Paris dos anos 20 com Adriana.

Com uma trilha maravilhosa e erudita, passando por Cole Porter, e uma fotografia amarelada simulando sutilmente o sépia que por vezes muda para um cinza nebuloso, Meia Noite em Paris nos leva a refletir sobre o amor ilusório que temos sobre o passado ( nitidamente sinalizado com os personagens sempre desejando uma era anterior considerando ser esta a era de ouro), como Gil descreve perfeitamente em poucas palavras: “That’s what the present is. It’s a little unsatisfying because life is unsatisfying.”
E termina com a bela mensagem de duas pessoas amando a chuva caindo em suas cabeças numa Paris que está mais dentro das pessoas do que na própria realidade em si.