Bravura Indômita (2010)

“You must pay for everything in this world, one way and another”

Que seja um remake de 69, o importante é que Bravura Indômita trouxe para o Cinema comercial da nossa década, algo que há muito não era explorado. A temática faroeste, numa aventura boa pra assistir, com personagens que alternam um coração mole ou duro como pedra.

Mattie Ross (Hailee Steinfeld ) começa narrando a história sobre como seu pai morreu, e como pretende vingar a morte dele. Decide então ir atrás de Tom Chaney (Josh Brolin) mas para isso, era necessário contratar alguém que fizesse o serviço. É então que ela contrata Rooster Cogburn (Jeff Bridges) tendo em paralelo LaBoeuf (Matt Damon) que possui o intuito de capturar vivo o mesmo homem.

O roteiro do filme é simples o suficiente para fluir de modo natural, com uma construção clara de começo, meio e fim. As cenas não são carregadas de nenhuma ação onde coisas explodem e pessoas correm para todos os lados, mas ele está carregado com o estilo do Velho Oeste, com personagens competentes (inclusive a garota Steinfeld) que junto com demais elementos bem trabalhados como uma boa trilha e fotografia, deixa o filme com uma qualidade peculiar dos irmãos Coen. Jeff Bridges está excelente para o papel que lhe foi dado, o que nos leva a considerar ser uma pena não ter garantido uma estatueta no Oscar.

O interessante do longa, é a alternância dos bons diálogos com um cunho até cômica em algumas partes, para cenas com mais tensão, por poucas vezes caindo numa dramaticidade que chega a ser dispensável, mas nem por isso deprecia o filme. Hailee Steinfeld cativa logo de cara, com suas negociações para arrecadar dinheiro, e mais ainda na cena que atravessa o rio de cavalo atrás de Cogburn. Os irmãos Coen tiveram a preocupaçnao de filmar a travessia completa, que invés de surtir um resultado que poderia parecer enfadonho, dá mais força ainda para o personagem de Mattie e uma sensibilidade não tão comum em filmes de faraoeste, principalmente com uma mulher protagonizando.

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Além da Vida (2010)

“If you are afraid about being on your own, don’t be. You are not.”

Desenvolver um filme sobre a morte, ou melhor ainda, sobre a suposta vida após a morte, é tarefa complexa e delicada. Um passo em falso você pode soar muito “Novela da globo que o Roupa Nova faz a trilha sonora” ou ainda atrair somente o público que crê/gosta de um tema como este. Contudo, quando se falou num filme cujo tema tivesse um pé lá com o espiritismo, porém cujas mãos foram concebidas por ninguém menos do que Clint Eastwood, este receio de soar tudo muito didático ou fraco (considerando filmes nacionais sobre o tema como “Nosso Lar”) logo desaparece. Apostamos as nossas fichas, esperando encontrar não necessariamente algo longe do clichê, mas sem dúvida algo que além de não afirmar absolutamente nada em 100% para que desta forma o filme atinja um ápice de imparcialidade, mostre uma boa história contada, digna como tantas outras do diretor.

E aqui nós temos 3 histórias num mesmo filme: Uma francesa (Marie LeLay – interpretada por Cécile De France) que ao passar suas férias na Tailândia, acaba sendo atingida por um Tsunami e passa por uma experiência de quase morte; Gêmeos totalmente ligados e unidos (Jason e Marcus, interpretado pelos irmãos George e Frankie McLaren) que tentam tirar sua mãe de um vício – e claro, uma tragédia Eastwoodiana fazendo a morte de um deles; e por fim, um rapaz (George Lonegan – Matt Damon) que anseia por uma vida normal, quando ele se considera amaldiçoado por ter o “dom” de se comunicar com os mortos. Dom este que seu irmão incentiva, afirmando que ele pode ganhar muito dinheiro com isso. Estas 3 histórias paralelas tratam sobre a morte de três diferentes maneiras, e embora você saiba obviamente que estas histórias irão se cruzar, não se faz idéia do como.

Durante praticamente o filme todo, as tramas vão revezando, respeitando a sequência que ocorre desde o começo: história de Marie, de George e dos gêmeos. Ao longo do filme, cada cena de um personagem vai ficando mais longa e intensa, mesmo que em algumas vezes (no caso da francesa Marie principalmente) vai se desenrolando lentamente. As cenas que diz respeito a Marie mesmo, chegam a ser enfadonhas só se tornando mais interessantes quando chega perto do fim. Entretanto, é bem verdade que uma das melhores cenas do filme (O Tsunami, que ocorre logo no começo) faz parte da sequência de Marie, que começa o filme sofrendo o acidente. Mal dá tempo de simpatizar-se com a personagem ainda, porém a cena possui tal sensibilidade (e perfeição praticamente, no quesito de efeitos visuais) que logo nos chama a atenção. Marie boiando inconsciente na água e o ursinho de pelúcia “encarando” ela reforça uma sensibilidade que é presente em quase todo o filme.

Outra analogia interessante sobre os sentidos é a aula de gastronomia de George, onde ele conhece uma garota (que representa uma das pouquíssimas falhas do roteiro, pelo motivo que não posso revelar aqui pra quem ainda não assistiu) e fazem uma aula de degustação com os olhos vendados, concentrando-se somente na sensação do paladar.

Paralela a esta sensibilidade, as pitadinhas irônicas de Eastwood também estão lá. Para acentuar ainda mais o fato de não tender a corda para nenhum dos lados, charlatões que se dizem videntes aparecem no filme, tentando claramente advinhar algo sobre aqueles que perderam algum ente querido. Além disso, Clint ainda brinca com o suspense, como na cena de Melanie (Bryce Dallas Howard) encarando algo fora da vista da câmera perguntando “quem é aquele”. 50 jujubas pra você que não imaginou que ela estava vendo um vulto de Allan Kardec ou Chico Xavier no sofá lendo um jornal.

Apesar destas sacadas muito bem posicionadas no filme, nem mesmo Clint se salvou do clichezinho (que em toda vez que surgia eu me hesitava na cadeira) de vultos contra a luz numa praia à la Cidade dos Anjos.

Eastwood também assina a música do longa, mais uma das falhas do filme, eu diria. Excessivo piano e músicas em Mi Menor, a trilha é carregada de uma melancolia talvez exagerada com relação ao filme, considerando que nem todas as cenas possuem tanta dramaticidade assim. Bem verdade, que em muitas partes ela condiz sim com o ambiente e o “espírito” da cena, com uma sutileza peculiar que não se vê nem mesmo em Menina de Ouro.

Mesmo com uma história digamos que “bonitinha” onde finalmente (COMEÇA SPOILER) Eastwood resolve deixar a tragédia no começo e no meio do filme (abandonando assim, aqueles finais cavernosos de amputações e despedidas dramáticas) (TERMINA SPOILER), você se emociona em muitas cenas, que intercalam ceticismo (por parte dos charlatões) com acontecimentos emotivos cujos fatos beiram o sobrenatural e o anjo da guarda em ação. O entrelaçamento dos três personagens, apesar de muitos afirmarem que poderia ser melhor, na minha opinião aconteceu de uma forma muito bem desenvolvida com um destino aparentemente correto, reservado para cada um dos personagens. Sem dúvida nenhuma os gêmeos (em especial, o que interpreta Marcus) nos cativa (logo na primeira cena em que eles aparecem) e Damon apesar de muito reservado, talvez limitado pelo perfil de seu personagem, ainda assim possui seu carisma já alcançado em outras datas.

Por fim, ainda ouso dizer que Clint Eastwood e Peter Morgan (responsável este pelo roteiro) colocaram uma personagem francesa na história causando para alguns uma incógnita interessante e insinuante: no país onde Allan Kardec nasceu –  o codificador do espiritismo, não o jogador de futebol moçada inculta! – e teoricamente foi o primeiro país a difundir a doutrina graças a ele (cujo nome original é Hippolyte Léon Denizard Rivail – e sim, eu usei control + V) é engraçado como há tanto tabu em se falar de temas como experiência quase morte ou conversa com os mortos, sendo evitado nitidamente pelos editores franceses que se recusaram inicialmente a ajudar Marie a publicar seu livro no filme. Talvez seja mera coincidência. Entretanto, em se tratando de Clint Eastwood, o mestre das sutilezas e analogias, eu não teria tanta certeza assim…

Invictus (2009)

“I thank whatever gods may be –  For my unconquerable soul.  I am the master of my fate,  I am the captain of my soul.”

Engraçado como tem filmes que a gente consegue identificar quem é o autor daquilo tudo. No caso deste, atente-se mais do que a sinopse em si: atente-se ao fato de que temos um grande homem maduro e sábio de um lado e do outro, temos um aprendiz, um garoto cujo físico é forte, mas possui um coração cheio de incertezas, medo e esperança. Este pode ser um filme de Clint Eastwood. Bingo! Cá está mais um…

Pode-se considerar também que em se tratando de Eastwood este filme pode ter um fim imprevisível (o que me decepeciona de alguma forma no final, por burlar esta regra Eastwoodiana), pode ter uma trama envolvente e sobretudo, polêmica ou histórica de alguma forma. Invictus conta como Mandela assumiu sua presidência na África do Sul, logo após o Apartheid, e como ele conseguiu de alguma forma, mesclar negros e brancos, eliminando assim a grande muralha social que havia entre os povos naquela época. E a maestria foi utilizar do Rugby, esporte bastante comum no país, para alcançar este equilíibrio que pudesse dar este esporte também aos negros e que pudesse mostrar aos brancos que este não estão postos de lado porque o governo está no comando de um negro. A figura de Mandela é ultra carismática, interpretada por ninguém menos que um grande carismático nato: Morgan Freeman.

Apesar do filme estar quase o tempo todo trilhado pelo torvelinho montado em cima da copa do mundo de rugby, o filme traz elementos capazes de nos tocar: a vida de Mandela, capaz de perdoar, mesmo tendo passado 26 anos numa prisão, a força de vontade dos jogadores de Rugby, a esperança de continuar lutando em busca da vitória e sobretudo a amizade entre negros e brancos pondo de lado fatores banais, utilizado por estratégia de Mandela o esporte como foco para este fim.

E o “aprendiz” aqui é Matt Damon que andou comendo bastante sucrilhos, pois não me lembro de ter visto o ator tão fortinho assim nos filmes anteriores… Ele é François Pienaar o capitão do time Sul Africano de Rugby que é conquistado pelo carisma de Mandela e incubido de vencer a Copa do Mundo. Sua atuação não surpreende ao mesmo tempo que não chega a desapontar, como na maioria de seus filmes que o trazem como coadjuvante. Ou talvez seja porque neste aqui, o contraste com a excelência de Freeman seja muito maior. Contudo, a figura sorridente e pacifista de Freeman casa perfeitamente com a do verdadeiro Nelson Mandela, isso facilita na nossa percepção de uma boa atuação.

Mas, se por um lado o filme emociona com seus fatores de laços se fundindo independente da cor, ou mesmo da cena onde os atletas de Rugby vão dar treinamento para crianças negras do subúrbio, por outro lado ele soa em algumas vezes um pouco forçado, trazendo harmonia em excesso e com isso, uma mesmice clara de filminho feliz da Sessão da Tarde, seja se tratando de Rugby, Futebol, Boliche ou peteca. O time que torce, treina e vence subindo o capitão nas alturas está sempre lá. Alimentando assim o que nosso inconsciente sedento de final feliz anseia, e desapontando ao mesmo tempo aquela nosso íntimo que deseja algo mais surpreendente do que o óbvio, mesmo que para isso, muita coisa acabe de forma triste. Desapontamento ressaltado, quando vemos um filme de Clint Eastwood e esperamos exatamente o inesperado. Mas é claro que, devemos considerar que o filme utiliza de uma história real, um tempo real e um personagem (Mandela) real. Mancada amputar a perna deste né, Clint?

Sejamos menos carrancudos no entanto. O filme tem tantas lições bonitas, tantos discursos emocionantes do líder Mandela, com uma trilha gostosa que participa daquela paz que o país compartilhava no final da Copa de 1995, que a gente se satisfaz com isso e solta um “Ufa – por essa, Clint deu uma trégua de desgraças…”