Dúvida (2008)

“Even if you feel certainty, it is an emotion not a fact.”

Não existe certeza absoluta. O que concretiza uma verdade? Uma mentira pode consistir em veracidade incondicional? Qual preceito da moral e religião? No filme Dúvida: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams determinam a verdade inexorável em rigidez, o carisma posto em dignidade e inocência passional, respectivamente.

A adaptação premiada do dramaturgo John Patrick Shanley – que, além da autoria, também escreve e dirige a película – debate intensamente os limites humanos: moralidade versus rigidez, verdade versus mentira, razão versus emoção. O trio central conceitua a problemática: o padre Flynn é posto em desconfiança pela irmã Aloysius que, induzida por uma suspeita da irmã James, passa a acreditar plenamente no seu envolvimento íntimo, secreto e sexual com um aluno negro. O roteiro propõe a polêmica: O que consiste uma percepção? Toda desconfiança há de ser acatada? Diante de nenhuma evidência concreta, como se sustenta uma verdade? O que é verdade?

Tudo no fime é avassalador e denso: as atuações são ásperas, cruas e soberbas. Os diálogos, altamente questionadores e realistas, devastam aspectos de fraquezas e mistérios humanos, a desconfiança contrapondo-se com a crença individual, o conservadorismo com seus dogmas e rigores. John Patrick Shanley não nega suas origens: desmede a fixação pelas cenas prolongadas em diálogos expressivos, breve mudança de cenários e o foco é justamente no efeito psicológico dos personagens – tudo é amplamente duvidoso, sugestivo às interpretações, pois o espectador tende a compartilhar da tensão e das mesmas incertezas vivenciadas pelos personagens.

Tudo é colossal: a fragilidade balanceada com a tempestividade, as verdades se mesclam com as mentiram e geram, daí o título, dúvidas intermináveis. O ser humano é a personificação da incerteza? Diante das adversidades a única solução é agir com receio? Como provocar a credibilidade em si e no próximo? O choque é justamente essa dupla-interpretação que o filme incita. O que é verdade pode ser uma mentira e vice-versa. Nem tudo é absoluto, definitivo e constante. Meryl Streep é um dragão faminto, cruel e agride com sua sutileza interpretativa – domina o filme com olhar, gestos e uma voz agressiva, dotada de firmeza. Philip Seymour Hoffman cativa como o padre suspeito, misto de charme e ternura – seria um homem de Deus ou um profano dissimulado? Amy Adams conceitua o misto da inocência, ingenuidade e emoção imaculada. É um filme que permite reflexão durante e após o término. Eis um efeito cinematográfico arrepiante, banho de técnica e plena sensibilidade de argumentação.

— > Texto publicado também no Apimentário.

As pontes de Madison (1995)

“This kind of certainty comes but once in a lifetime.”

Cara leitora, se você é uma senhora de meia idade, com todos seus filhos criados e um marido que arrota Skol no sofá com a barriga peluda pra cima enquanto assiste uma partida do Curintia, você irá amar essa válvula de escape, dirigida por Clint Eastwood. Mesmo que o ator galã aqui, já esteve em melhor forma algumas décadas anteriores.

Agora você, urso barrigudão que espera “a janta” no sofá vendo o futibol-arte e nem sabe se sua mulher cortou o cabelo hoje e sua única preocupação é o gol impedido ou se vai emendar o próximo feriado ou não, bom, você irá talvez odiar o filme e achar tudo um absurdo.

Este é um resumo claro dos dois tipos de pessoas e suas respectivas percepções com o drama. Claro, temos a terceira camada: a galera que pode assistir de forma neutra, não levar para o lado pessoal, analisar a história e se sensibilizar com um romance doce e expressivo como este.

Dirigido por Eastwood, do romance de Robert Waller, com o roteiro de Richard LaGravenese (que também é responsável pelo roteiro e direção de outro romance de sangrar: PS Eu te Amo), conta a história de uma imigrante italiana, Francesca (interpretado pela DIVA Meryl Streep) que se casa, tem dois filhos e mora numa fazenda em Iowa, com uma vida pacata e estável. Quando seu marido e filhos vão viajar, estando fora por quatro dias, aparece logo no primeiro dia, um fotógrafo – Robert Kincaid (Clint Eastwood) da National Geographic perguntando a Francesca sobre uma ponte que possui uma linda paisagem. Esta, cansada de assistir Ana Maria Braga ou fazer crochê, resolve acompanhar Robert até o local, e eis que se inicia um romance cujo início foi muito bem estruturado, sem precipitações, ocorrendo as cenas na hora certa e exprimindo da atuação de Streep toda sua competência, que consegue convencer em sua angústia e ânsia em demonstrar sua atração pelo fotógrafo ao mesmo tempo em que se segura através de seu receio e sua imagem daquilo que pode ser certo ou errado.

A grande falha na história (que também consta no livro) é os irmãos que estão lendo a narrativa de Francesca logo no começo do filme. Apesar deles darem todo o sentido da mensagem da história com o final (de um modo que atenua a sensação de Francesca estar cometendo um adultério que pode ser julgado por quem assiste logo no começo) eles estragam o romance tanto pela atuação quanto pelas rupturas das cenas de romance quando a história volta pra realidade e mostra diálogos idiotas entre os irmãos. Se Eastwood deixasse a duplinha apenas no começo e no fim, dando-nos uma linearidade maior no romance e até mesmo excluindo certos comentários desnecessários de Francesca, a desenvoltura do filme teria mais êxito.

A parte disso, temos um filme sensível que expressa o amor de ambos personagens e deixa claro os desejos e limitações de Francesca até mesmo em detalhes simples como deixar o cabelo solto quando ao lado de Robert, ou um coque tímido e comportado quando volta a ser a esposa e mãe. É um filme que frisa além do que é certo ou errado, da apologia ou não a traição, ou se a pança de Eastwood é mais sexy do que a de Richard (Jim Haynie) o marido de Francesca. E além disto, estão questões levantadas mesmo que subjetivas no filme como ser feliz ignorando comentários de terceiros, abdicar esta sua própria felicidade por conta de outras pessoas (como seus filhos), viver um mundo inteiro dentro do universo de alguém que se descobre amar ou viver somente seu pequeno mundo compactuando o comodismo ao lado de sua família, vivendo seus dias numa mesmice que pode se contentar ou não. Francesca não se contentou, mas não abriu mão mesmo assim de sua vida considerando suas razões que se mostram claras e coerentes. Robert, apesar de compreender ainda insiste na esperança de estender para a eternidade os quatro dias bons que teve ao lado de Francesca. Este impasse é bem representado na cena dramática de Francesca no carro de seu marido, atrás da caminhonete de Robert que para no semáforo verde, esperando a resposta da amante.

 

As Pontes de Madison não existe para ser criticado ou analisado sobre o quão errado ou quão certo Francesca está. Ou sobre as decisões finais dela, ou sobre trair ou não, largar ou não, abdicar ou não. Ele existe para ser apreciado, olhar para si e repensar em sua vida, ainda mais quando se tem alguém do lado. Esta mensagem é transparente quando se conclui com os filhos de Francesca tomando suas decisões e reavaliando seus casos amorosos. No mais, ele existe para caracterizar no cinema um romance com bela fotografia, bela paisagem, belo jazz e a nossa eterna capacidade de escolha.

O Diabo veste Prada (2006)

“Oh, don’t be silly – EVERYONE wants this. Everyone wants to be ‘us’.”

O Diabo Veste Prada seria mais um filme fútil, para a alegria e entretenimento de muitas mulheres. Seria mais uma comédia romântica medíocre de roteiro previsível e bobo, com ápices de choradeira e risada forçada. Contudo, de fato ele não é 100% um filme para ser desprezado.

Primeiro porque temos a DIVA Meryl Streep. Linda, magnífica atuando perfeitamente o papel de Miranda Priestly, Edita Chefe da revista Runway, considerada uma das maiores revistas de moda da atualidade (algo como Vogue no mundo real, não?). Miranda é arrogante, esnobe, sem tempo para sentimentalismos e mimimis.

Para levar seu café, carregar seu casaco e agendar suas reuniões, Miranda contava com sua assistente Emily e era preciso mais uma segunda assistente, cargo “desejado” por diversas garotas de Nova York.

Diante disso, surge Andrea ‘Andy’ Sachs (Anne Hathaway) recém formada em jornalismo, que vai pra cidade grande buscar um primeiro emprego em algum jornal importante local.

Eis que ela acaba caindo na grande Runway Magazine. E claro que Andy é zuadinha, com cabelos largados, gloss incolor da “Avão”, sapatos que sua vó com pé inchado usa, e roupas de lã com pelo de gato. Andy nunca ligou muito para estética, levava uma vida simples porém honesta com seu namorado, gerente de uma lanchonete e seus amigos.

E claro que daí ela é avacalhada por todos da Editora por seu modo de vestir-se, e tratada igual um ser insignificante por Miranda. E claro que ela depois de uma explosão de choradeira, e com a ajuda de Nigel (Stanley Tucci) ela entra finalmente no universo da moda e gRamour, subindo em cima de um Manolo Blahnik.

Sendo uma assistente exemplar, com salários altos e alavancando a carreira, Andy acaba se tornando uma workaholic e esquece de sua vida pessoal, até mesmo das coisas simples da vida. “Quando chega o momento que sua vida pessoal está um caos, significa que você será promovida no trabalho” (ou algo parecido) “Uma coisa leva a outra“, afirma Nigel para Andy, quando ela se dá conta (mesmo sem tentar mudar), de que largou seus amigos e estava ausente nos momentos mais importantes com o namorado. Isso é facilmente percebido quando você tem Miranda como referência. A mulher dominadora do mundo fashion, com seu casamento falido e com suas filhas supridas mais por produtos e objetos de consumos do que por atenção de mãe.

O filme, apesar de seu roteiro clichê (porque Andy percebe através da megerice de Miranda que aquela não era ela e que ela deveria voltar para sua essência) mostra um personagem com um amadurecimento além de  mudanças que nós mesmos podemos passar na vida. Seja por entorpecimento diante do sucesso, quanto por deixar de lado questões como família e amigos por conta de sua carreira. Andy nem mesmo no fim consegue ser mais a mesma. Mesmo com sua percepção da realidade, a Andy que você no fim do filme, mesmo que com menos glitter não é mais a mesma sem sal do começo. Você vê uma maturidade que atrelada com seus princípios ressurgindo, nasce uma grande mulher (nossa, que frase luxuosa essa!). Enfim, são as mudanças e mutações que passamos, as lições que aprendemos e a recuperação de nossa essência (ou não) com maior maturidade. Mesmo Andy saindo da Runway para um emprego onde o foco não é moda, você conclui que seu quase um ano no mundo da moda rendeu além de suas próprias lições, uma porta para novas oportunidades em sua carreira.

Não li o livro, porém deduzo que ele deve ter sido menos superficial. E com uma Miranda sem sorrisos bondosos no final, porque matou seu personagem fazendo aquilo. De qualquer forma, ele consegue produzir uma mensagem ou mesmo fazer relação de uma realidade comum. Se isto é ruim ou não é tudo uma questão de ponto de vista.

Simplesmente Complicado (2009)

“Is it really necessary for you to always say no before you say yes?”

Regra número 1 de uma comédia romântica: Seja gostosa de assistir. E pronto. Não há necessidade de ser inovador, pois a maioria das comédias românticas possuem clichês, e nem por isso são menos assistidas. Clichês são legais por vezes. Entretanto, Simplesmente Complicado não se torna uma comédia clichezona 100%. Ela traz um roteiro diferente, e acima de tudo: Um trio impecável que deu super certo! Isso, considerando também que o filme tem um “quê” mais maduro, old fashion, e nem por isso ultrapassado (rola até uma maconha no meio). Eu nunca tinha visto uma comédia com Alec Baldwin, nem me dado conta do quanto o cara é obeso (e engraçado).  Steve Martin faz um papel menos babaca do que dos demais filmes já feito, porém ainda sim é digno. E Meryl Streep puts… ela é uma diva né?

A história é a seguinte:  Jane (Meryl Streep) está divorciada há 10 anos de seu ex-marido, Jake (Alec Baldwin). Este na época do divórcio, deu uma traição violenta em Jane, tendo um filho com Agnes, uma garota nova, sarada e com instinto piriguete… Jane e Jake tiveram 3 filhos e na formatura do garoto, o ex-casal acaba se apaixonando novamente, e Jake passa a ver sua ex-esposa com outros olhos.

Aos poucos você tem a impressão de que Jake começa a se arrepender de ter largado a família, e percebe que ele preferia envelhecer ao lado da Jane. Os dois começam a ter um caso, e a ex-esposa traída passa a ser amante (for fans \o/). Só que tem o Adam (Steve Martin) na história. Ele é o arquiteto de Jane e os dois começam a ter uma amizade meio colorida. Isso acaba dando uma desestabilizada ainda maior na cabeça de Jane.

As cenas hilárias são aquelas leves que garante algumas risadas, mas nada de doer o estômago. Com excessão claro, da cena do Notebook e de Alec Baldwin que apesar do tecido adiposo avantajado tem um charme durante o filme todo, garantindo muito carisma.

Simplesmente Complicado traz uma reviravolta numa história muito comum, que é a de um casamento que não deu certo. Jake solta no meio do filme a reflexão sobre como seria se as pessoas divorciadas tentassem de novo depois de anos, partindo desde o começo, tendo passado por todo o estress, quando já não resta mais a dor de cabeça do amadurecimento. Bom, tentar não significa exatamente que a segunda vez irá funcionar. Mas, tentar é bacana né? Reflexão no mínimo interessante…

Steve Martin