Cidadão Kane (1941)

“I don’t think there’s one word that can describe a mans life.”

A partir de 1952, a revista inglesa “Sight & Sound” resolveu fazer uma enquete internacional, entre críticos e diretores de cinema, para escolher os melhores filmes de todos os tempos.

Naquele ano, “Ladrões de Bicicleta”, já abordado aqui, ficou com o primeiro lugar na lista dos profissionais de cinema. Os editores da revista decidiram, então, realizar uma pesquisa semelhante a cada dez anos. Em 1962, “Cidadão Kane”, realizado por Orson Welles nos Estados Unidos em 1941, e praticamente desconhecido pelo grande público, chegou ao primeiro lugar da lista. E nunca mais saiu.

A enquete foi repetida em 1972, 1982, 1992 e 2002. Muitos filmes entraram e saíram da lista, mas “Cidadão Kane” permaneceu ali, intocável, em seu primeiríssimo lugar.

E o que faz com que um filme realizado há 70 anos possa ainda encantar críticos e diretores de cinema? O que ele tem de tão diferente assim? Essa é uma pergunta que gera dezenas, talvez centenas, de respostas. Uma resenha é pouco para se falar de “Cidadão Kane”. Um dia é pouco também. Assim, recomendo aos mais pacientes, e cinéfilos de carteirinha, que sigam o meu exemplo e vejam esse filme inúmeras vezes. A cada exibição, tenho certeza que o espectador vai perceber algo que não tinha observado antes.

A câmera sobe lentamente pelo portão do palácio de Charles Foster Kane. Fusão após fusão, chega ao seu leito de morte. Close em seus lábios. Ele diz: “Rosebud!”. E morre.

A partir daí, todos querem saber: quem, ou o quê, é “Rosebud”? Por que um milionário, no seu último suspiro, disse essa palavra? Ele teve tudo que quis na vida, poderia se lembrar de qualquer pessoa, qualquer coisa que fosse importante em sua vida. E disse “Rosebud”?

O filme passa então a acompanhar um repórter, que entrevista muitos que tiveram contato com Kane ao longo da vida. Gente que gostava dele, gente que o detestava… Qual o mistério por trás de “Rosebud”?

Quem for muito atento, vai ver diversas pistas sobre “Rosebud” logo na primeira exibição. Mas, muita gente não vai perceber nem quando o segredo é revelado, mesmo que ele surja do tamanho de um ônibus na tela. Digo por experiência própria. Como vi dezenas de vezes, várias pessoas, na saída do cinema, me perguntavam: “Mas, afinal, quem é Rosebud?”

Sim “Rosebud” surge em toda a tela, ocupa todo o espaço da cena. Mas, mesmo assim, muita gente não percebe, não consegue ver “Rosebud” ali! E a cena é longa! A câmera pára o seu longo travelling e nos mostra “Rosebud”. Mas, repito, muita gente não vê!

O repórter, como nós, espectadores, está ali tentando descobrir mais sobre a vida do milionário Charles Foster Kane. E tudo indica que “Rosebud” é a chave para a descoberta de tudo. Um locutor, que acompanha a trajetória do repórter, como num cinejornal, num documentário, pergunta: “Será possível desvendar a vida de um homem?”

Essa pergunta é transferida para nós. Sim, nós, os espectadores. Nós deixamos de ser passivos espectadores e temos que procurar a resposta também!

Kane, através de vários flashbacks, nos é mostrado “quase” por inteiro. Uma criança pobre que foi entregue a um tutor e se tornou um dos homens mais ricos do mundo. Olhando assim, muitos podem pensar: “Então, ele foi um homem feliz! Deixou de ser uma criança pobre e teve tudo o que uma pessoa poderia ter nessa vida.”

Será?

Orson Welles fez essa obra-prima quando tinha apenas 25 anos. As pessoas podem não gostar dele, podem não gostar de “Cidadão Kane” e dos outros filmes que ele fez. Mas, alguém duvida que era um gênio, que estreou no cinema produzindo o filme que é considerado ainda hoje o maior de todos os tempos? Eleito por críticos e diretores de todas as partes do mundo, desde 1962?

Quem não é cinéfilo de carteirinha pode torcer o nariz para esses questionamentos. Pode achar tudo mera arrogância. Pode enumerar centenas de filmes melhores do que “Cidadão Kane”.

Tudo bem. Mas, crie coragem e veja uma segunda vez. Lá estará uma cena que você não tinha percebido. Veja uma terceira vez. Lá estará outra cena. Parece outro filme. Em que ano estamos? Qual a idade de Kane agora? O filme vai e volta no tempo, pois diversas pessoas o conheceram em épocas diferentes. Mas, quem é Kane? Quem é “Rosebud”?

A importância de “Rosebud” na vida de Kane é mostrada muitas vezes. Talvez o repórter não perceba, talvez seus amigos mais íntimos não percebam. Talvez você, espectador, não perceba numa primeira exibição. Porque “Rosebud” representa o que temos de mais profundo em nossos corações, nossos sonhos mais belos, nosso ideal de pureza e felicidade.

Isso é fácil de encontrar nesse mundo?

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Bill Falcão é editor do Jornal da Lua.

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