Edward Mãos de Tesoura (1990)

“Kevin, you wanna play scissors, paper, stone again?”

Se há um exemplo cinematográfico claro sobre forma e conteúdo, função e estética, atribuimos este filme como um dos principais. Gravado num bairro pacato da Flórida, Burton (que estartou sua fama a partir deste filme, junto com Depp) pintou todas as casas com cores vivas e saturadas. O personagem principal era uma figura sombria, com a pele branca roupas escuras. Quase uma junção de Caligari com The Cure.

Através deste contraste metafórico entre o sombrio e o colorido vivo, se contava a história do Estranho VS Socieadade Comum. Todos eram iguais exceto Edward, uma invenção não finalizada com suas mãos de tesoura que tornava-o incapaz de tocar qualquer coisa sem ferir. E a graça toda do filme: Era Edward o mocinho de coração puro. E todo o “mundo colorido” os grandes vilões…

Considerado um dos melhores trabalhos de Burton (na verdade, o melhor), Edward traz um roteiro diferente, ao mesmo tempo que simples, soando quase como uma fábula triste sobre uma figura que buscava a aceitação de todos. É uma alusão nítida sobre preconceitos através da imagem. Vemos no personagem uma inocência que a princípio parece não condizer com suas características. Edward é a personificação da esquisitice humana que pode ser amada por uns, desprezada ou injustiçada por outros.

Kim (Winona Ryder) é uma das poucas que de fato percebe Edward como se fosse um humano e Edward por sua vez se apaixona pela garota que sabe que não pode abraçá-la, por mais que queira. Johnny Depp, apesar de dizer somente 169 palavras no filme todo, ganhou destaque e marcou sua carreira interpretando o sombrio Edward, ganhando aí um passaporte da alegria eterno com Burton entre decepções e acertos posteriores. Winona é morna, como acredito que é em quase todas atuações, mas cumpre a sutileza e traços doces que seu personagem traz, intercalando uma leve maquiada perversão para se aproveitar de Edward, como os outros.

E aqui temos ainda a honrada e última aparição de Vincent Price (um ídolo de Burton que já havia dublado um primeiro curta stop motion do diretor em 82), como o inventor de Edward, que morre antes de finalizá-lo, deixando tesouras tão afiadas quanto as Facas Ginso no lugar das mãos.

Edward Mãos de Tesoura faz parte da série: Filmes dos anos 80 que  você assiste hoje em dia, e produz o mesmo efeito. Ou seja, é uma pintura conceitual e atemporal, passível de discussões ao redor de seu tema de pano de fundo, uma obra de arte daquelas que Burton nunca mais será capaz de construir outra igual. E por mais bizarros que sejam seus personagens posteriores, nenhum se compara a Edward.

♫ Danny Elfman – Beetlejuice Main Theme

Bom dia meninada! Como a segunda-feira é um dia adorável para todos, ainda mais pra quem não pegou férias no final de ano, vamos a trilha da semana!

Desta vez com uma composição de Danny Elfman, parceiro de longa data de Tim Burton, um artista que faz trilhas magníficas e ex-integrante do Oingo Boingo.

Bem verdade, que chegou um ponto onde a musiquinha de Danny Elfman e os bichinhos bizarros de Burton já estavam manjados demais para nos cativar. Mas, essa trilha do filme Os Fantasmas se Divertem de 1988 segue a linha da música da intro do desenho e é uma das melhores que Elfman compôs. Então vamos lá!

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

♫ Marilyn Manson – This is Halloween

Na realidade, essa é a trilha do Stop Motion de Henry Selleck “O Estranho Mundo de Jack”. Aí o Marilyn Manson resolveu fazer uma versão mais monstruosinha da música. Ou seja, o filme virou trilha da música pro Marilyn, sacou sacou?? Legal essa versão porque é muito mais esdrúxulo que a original com a voz do Marilyn sintetizada daquele jeito típico. Enfim, a música original foi composta pelo Danny Elfman (um gênio) em 1993. E toca logo na intro da animação, até como uma cena explicativa e introdutória para o começo da história.

O Estranho mundo de Jack é um stop motion de 1993, produzido pelo Tim Burton que tamb;em ganha todos os créditos pelo mundo afora (mainstream) apesar da direção ter sido do Henry Selleck. Todo natal passa essa animação na TV, mas ela casa muito melhor com o Dia das Bruxas. Seria minha animação preferida, mas outras já entraram no caminho =) Enfim, vamos ao Marilyn!

♫”I am the clown with the tear-away face
Here in a flash and gone without a trace
I am the “who” when you call, “who’s there?”
I am the wind blowing through your hair”♪

A ausência de Burton

Não diria talvez “a ausência do ‘verdadeiro’ Burton”. Verdadeiro pode ser relativo…Podemos definir como “o talentoso” Burton, ou o Burton que nos deu grandes filmes. Mas, alto lá você que começa a ler este texto! Este não é sobretudo um post que fala o quão Tim Burton tem errado nos filmes, ou o quão o diretor caiu na mão do mainstream, ou o quanto eu gosto ou desgosto do diretor. Antes de alimentarmos discórdia talvez por incompatibilidade de opniões em excesso, deixe-me esclarecer que até alguns anos atrás, Tim Burton era mais que um grande diretor para mim. Era um ícone que eu tinha como referências para muitas coisas, da mesma forma em que o diretor utiliza o Expressionismo Alemão ou Edgar Allan Poe para suas referências. Se falo aqui um texto demasiado polêmico, falo como uma pessoa que admira o trabalho do diretor e questiona certos trabalhos dele, bem como sua posição atual, e não engulo a máxima de que Burton é a perfeição do cinema, seja fazendo um Edward Mãos de Tesoura ou um Alice no País das Maravilhas. Eu, Natália, comparo sim, e eu Natália, sendo fã de Tim Burton, não nego que este último filme é um verdadeiro lixo. E sim, vou exorcizar meus demônios neste post, agora…

O primeiro Stop Motion de Burton, foi um curta metragem de 82, intitulado de Vincent, um garoto que desejava ser como Vincent Price. Curto, porém super conceitual, a animação narrava pelo próprio Price um poema de autoria de Burton sobre suas dores soturnas e seus desejos oriundos de uma mente carregada de dramas e crises existenciais. Alí, você já vê os primeiros detalhes gráficos e elementos visuais que caracterizam a identidade visual da maioria dos trabalhos do diretor: Objetos irregulares, nomes de personagens esquisitos, escalas de cinza, olhos grandes e expressivos com olheiras porém dotado de um carisma formidável.

Não demorou muito para Tim ser conhecido, ainda na mesma década, Beetlejuice e Batman enfatizam bem sua estética de tal modo que com o Stop Motion de 93, O Estranho Mundo de Jack, dirigido por Henry Selleck até hoje é confundido por leigos que acreditam ser do próprio Burton a direção por apresentar os padrões de bizarrice e carismas iguais.

Contudo, se é para falarmos de obra prima, ou melhor dizendo, se é para citarmos um fundamento, muito mais do que simplesmente composições visuais (até porque é provado que nós amantes de cinema não nos alimentamos só disso) nós temos um dos melhors filmes de Tim Burton, se não um dos melhores filmes já feitos, o clássico e apaixonante Edward Mãos de Tesoura. Aqui Burton faz valer que forma e função andam juntos, dando um sentido muito maior do que o bonito para o contraste do colorido saturado da vizinhança com a figura monocromática e gótica de Edward. Contudo, apesar da bizarrice esdrúxula, Edward tem um bom coração. Aliás, um coração muito maior do que os demais “coloridos”da região. Edward é um filme que traz uma história atemporal, ultrapassando etnias, tempo, cultura. É sobre você ser diferente. E até então, Tim Burton era um deles. E o melhor de tudo é que as poucos, podemos saborear um Burton que mostrava seu talento não somente para o soturno mórbido. Havia bizarrices nas fantasias, nos sonhos, e na nossa capacidade de imaginar. É aí que Peixe Grande se encaixa.

Enfim, a carreira de Tim foi marcada com muito altos e baixos em suas três décadas de atuação. Mas, afinal, porque não perdoarmos quando um diretor comete erros, não? Muitos outros diretores já passaram por empreitadas infelizes, nem por isso foi-lhes tirado o mérito como bons profissionais que são. Mas, vamos com calma… Minha indagação consiste mais no que passa pela cabeça do grande Burton atualmente, do qua na dúvida sobre irá ele errar ou não o próximo. Afinal, isso nada mais é do que consequencia da primeira questão…

Sweeney Todd foi um bom filme. Não precisou muito esforço na parte conceitual considerando que o filme é um remake de um mal feito antigo e também de uma ópera do mesmo nome. Toda a dramatização do longa já estava lá. O toque final de Burton foi adequar novamente sua estética para o filme, acentuando aqui e ali destaques peculiares, seja no contraste vermelhão do sangue com os tons frios de toda a cena, seja no cômico episódio de Depp com roupas de banho a la Beetlejuice. E ao meu ver, ele acertou muito bem, considero Sweeney Todd, seu último melhor filme, embora ele não carregue um sentido tão profundo quanto Peixe Grande ou Edward.

Mas foi a partir daí quando Tim voltou com tudo para a Disney que o negócio começou a feder. Nada contra a Disney, mas a fantasia da Disney com a fantasia de Burton não se convergem: o resultado disso é uma história boba carregada de uma fotografia e uma “carcaça visual” tão rica em detalhes e imagens que Burton passa a atrair mais as crianças dos olhos brilhantes, que os amantes de suas histórias estapafúrdias.  Foi o que aconteceu com Alice no País das Maravilhas: o Mainstream caiu matando, ficou aquele vuco vuco todo, com todo mundo aguardando fervorosamente a estréia (inclusive eu) e como em muitos outros casos em que alimentamos muita expectativa, veio uma enorme decepção. Aliás, quando me refiro a uma “história boba”, não me refiro ao clássico irretocável de  Lewis Carroll, e sim ao roteiro mal conduzido e com final xoxo desta adaptação, onde nem os personagens por mais talentosos que sejam conseguem fazer milagres. Você via os coloridos fortes de Edward mãos de Tesoura, você via a música trevosa de Danny Elfman, a brilhante Helena Bonham-Carter, os trejeitos carismáticos de Johnny Depp. De resto, era só um vazio. Você não via Burton ali, porque bichinhos bizarros e coloridos, você pode ver em “Avatar” se sentir necessidade, o que queriamos ver de Burton era muito mais além da imagem.

E com a estréia de Alice, eu senti um luto muito diferente do que nos filmes infelizes do diretor. Porque daí em diante surgiam boatos cada vez mais ridículos como “remake de A Familia Addams”ou a “versão trevosa da bruxa Malévola”. Taí a Disney querendo botar pra f*** e acabar de vez com Burton. Afinal, que coisa chata é essa de dar um toque “buuu” para todos os filmes porque a galera se encanta? Que coisa chata é essa de remake em stop motion de A Familia Addams se a própria história já possui bizarrice por si só numa comédia que chega a ser única? Burton parece estar sobrevivendo de estética batida, seus atores fixos, seu fiel Elfman e suas redundâncias que dessa vez, não constam fundamentos mais. E redundâncias sem fundamentos não tem graça. Seja uma bela composição de Burton, um belo arranjo musical de Dany Elfman, uma perfeita atuação de Helena como quase sempre, sem conceito Burton, a gente enjoa dos seus bichinhos psicodélicos, e a gente lamenta a qualidade que foi deixada lá trás, e reavivemos Edward Mãos de Tesoura assim como reavivemos qualquer outro filme magnífico cujo diretor deixou de produzir novas peças após isso.

E perdoem-me o drama que fiz nesse texto todo, mas enfim. Haverá outra peça rara de Burton daqui pra frente? Vocês acreditam nisso?