Beetlejuice no jantar

Pára tudo!

Sem sombra de dúvida, uma das melhores cenas oriundas da mente problemática e estapafúrdia de Tim Burton. A cena em que Beetlejuice sai possuindo todo mundo no jantar e começa a dancinha de Day-o (Banana Boat) de Harry Belafonte. De Os Fantasmas se Divertem, 1988 época de ouro para Michael Keaton e Winona Ryder, antes de Burton se apaixonar por Johnny Depp.

Cena: Sessão espírita do Beetlejuice
Os Fantasmas se Divertem (1988)
Dir. Tim Burton

Interpretação fodástica de Catherine O’Hara, que ultimamente anda somente dublando animações, inclusive cotada para o novo projeto de Burton, Frankenweenie.

Agora todo mundo com a mãozinha direita na pança e mãozinha esquerda pra cima balançando! Day! me say day, me say day, me say day!

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As Bruxas de Salem (1996)

“How may I live without my name? I have given you my soul; leave me my name!”

Mero engano acreditar que o filme carrega suspense, violência e mulheres sendo queimadas, num churrasquinho de gente diferenciada. A realidade é que muito embora sejamos passíveis de pensar desta forma, As Bruxas de Salem tem uma sensibilidade e um contexto mais fundo sobre todo esse tema de bruxaria que envolvia o século XVII, período que toda a ignorância reinava por conta da religição e das crenças das pessoas.

Baseado em fatos reais, iniciou-se um período de Caça as Bruxas, e a pequena província de Salem era um dos palcos, quando um grupo de meninas foram pegas pelo reverendo, dançando em volta de uma fogueira e aparentemente compactuando com o capeta… Abigail Williams (Winona Ryder), a sobrinha do reverendo, talvez a mais esperta daquela província, começa a fazer uma série de acusações alegando estar perturbada por pessoas que tendo um pacto com o demônio, submetia Abigail a fazer coisas erradas e a perturbar as garotas. Logo, todo mundo cai no papo de Abigail e as meninas, que fingiam estarem possúidas.

E o que Abigail na realidade queria, era se livrar da mulher de John Proctor (Daniel Day-Lewis) para que pudesse ficar com ele. Com toda a ambição egocêntrica de Abigail, a história desencadeia para uma série de inocentes sendo capturados e punidos caso não confessassem a amizade com o Belzebu. O filme mostra muito bem a farsa e mediocridade em torno do tema, nas pessoas daquela época, que se você não confessasse você morria, e se você confassasse (uma mentira) seu mau nome seria estampado nas igrejas e por toda a província. Mas, além disso, mostra ainda a bondade e sabedoria de algumas pessoas, afinal, em paralelo com a perversão de Abigail, havia a esposa de John Proctor, Elizabeth (Joan Allen), que perdoando o adultério do marido com Abigail, mantém equilibrio do começo ao fim, tentando salvar seu marido, que perdia o controle diante da frieza dos fatos. Seja do reverendo e todos os demais destinados a julgar o caso, como das garotas (em principal, Abigail) que fingiam para não se prejudicarem com a história da dança na fogueira.

O elenco e a dedicação que todos dão aos seus respectivos personagens, é um ponto forte do filme que vai se arrastando de uma forma angustiante a medida que todos capturam velinhos inocentes acreditando nas histórias das garotas. É difícil determinar meio e fim, e além da sensação de incômodo não sobra muita coisa, até sermos contemplados com a belíssima cena do diálogo entre Elizabeth e John Proctor. E mais ainda, a cena que se segue, da qual me limito em não comunicar, mas que é a real cena que sacode o filme (deixado lá no final).

O diretor Nicholas Hytner soube trabalhar os closes (a corda final, esticada no último frame do filme por exemplo), a fotografia apagada e quase monocromática daquela época que representava todo marasmo e vazio espiritual da província. Não considero um excelente filme, senão pela atuação de Daniel Day-Lewis e Winona, que realmente consegue irritar, mas de fato é um dos melhores que lida com o tema de uma forma diferente.

Edward Mãos de Tesoura (1990)

“Kevin, you wanna play scissors, paper, stone again?”

Se há um exemplo cinematográfico claro sobre forma e conteúdo, função e estética, atribuimos este filme como um dos principais. Gravado num bairro pacato da Flórida, Burton (que estartou sua fama a partir deste filme, junto com Depp) pintou todas as casas com cores vivas e saturadas. O personagem principal era uma figura sombria, com a pele branca roupas escuras. Quase uma junção de Caligari com The Cure.

Através deste contraste metafórico entre o sombrio e o colorido vivo, se contava a história do Estranho VS Socieadade Comum. Todos eram iguais exceto Edward, uma invenção não finalizada com suas mãos de tesoura que tornava-o incapaz de tocar qualquer coisa sem ferir. E a graça toda do filme: Era Edward o mocinho de coração puro. E todo o “mundo colorido” os grandes vilões…

Considerado um dos melhores trabalhos de Burton (na verdade, o melhor), Edward traz um roteiro diferente, ao mesmo tempo que simples, soando quase como uma fábula triste sobre uma figura que buscava a aceitação de todos. É uma alusão nítida sobre preconceitos através da imagem. Vemos no personagem uma inocência que a princípio parece não condizer com suas características. Edward é a personificação da esquisitice humana que pode ser amada por uns, desprezada ou injustiçada por outros.

Kim (Winona Ryder) é uma das poucas que de fato percebe Edward como se fosse um humano e Edward por sua vez se apaixona pela garota que sabe que não pode abraçá-la, por mais que queira. Johnny Depp, apesar de dizer somente 169 palavras no filme todo, ganhou destaque e marcou sua carreira interpretando o sombrio Edward, ganhando aí um passaporte da alegria eterno com Burton entre decepções e acertos posteriores. Winona é morna, como acredito que é em quase todas atuações, mas cumpre a sutileza e traços doces que seu personagem traz, intercalando uma leve maquiada perversão para se aproveitar de Edward, como os outros.

E aqui temos ainda a honrada e última aparição de Vincent Price (um ídolo de Burton que já havia dublado um primeiro curta stop motion do diretor em 82), como o inventor de Edward, que morre antes de finalizá-lo, deixando tesouras tão afiadas quanto as Facas Ginso no lugar das mãos.

Edward Mãos de Tesoura faz parte da série: Filmes dos anos 80 que  você assiste hoje em dia, e produz o mesmo efeito. Ou seja, é uma pintura conceitual e atemporal, passível de discussões ao redor de seu tema de pano de fundo, uma obra de arte daquelas que Burton nunca mais será capaz de construir outra igual. E por mais bizarros que sejam seus personagens posteriores, nenhum se compara a Edward.